sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“Se eu fosse Iracema” faz curta temporada no Centro Cultural da Justiça Federal

Interpretado por Adassa Martins, monólogo do 1COMUM Coletivo volta aos palcos do Rio de Janeiro as quartas e quintas às 19h

Espetáculo inspirado em carta escrita pelos guarani e kaiowá aborda mitos, rituais e a situação indígena no Brasil



Depois de temporadas bem-sucedidas no Sesc Tijuca, no Sérgio Porto e no Sesc Ipiranga (SP), além de circular por várias cidades e festivais brasileiros, “Se eu fosse Iracema” volta à cidade para curta temporada no Centro Cultural da Justiça Federal de 30 de novembro a 21 de dezembro, as quartas e quintas, às 19h. O espetáculo surgiu a partir de uma carta escrita em 2012 pelos guarani e kaiowá em que eles pediam que se decretasse sua morte em vez de tirá-los de suas terras. O fato chamou a atenção de Fernando Nicolau e Fernando Marques, diretor e dramaturgo, respectivamente, e ambos começaram uma intensa pesquisa acerca da questão indígena no Brasil. A eles juntou-se a atriz Adassa Martins e os três desenvolveram o primeiro espetáculo do 1COMUM Coletivo, que estreou em abril de 2016. Desde a estreia, o espetáculo tem tido excelente repercussão junto ao público e à crítica. Foi escolhido como melhor figurino pelos Prêmios Shell, APTR e Cesgranrio no ano de 2017, além de indicações para Adassa Martins na categoria atriz no Prêmio Shell, APCA e APTR, e para Fernando Marques na categoria autor no Prêmio APTR.

A peça lança mão de materiais como trechos da Constituição de 1988, falas inspiradas em discursos de ruralistas ou do poder público, mas estrutura-se fundamentalmente em ritos e mitos de passagem ligados às várias fases da vida. “Escolhemos trabalhar o ciclo da vida: a origem do mundo, a infância, a adolescência, a fase adulta na figura da mulher e o ancião, na figura do pajé chegando ao fim do mundo”, explica o diretor. Esse ciclo, no entanto, não é colocado de forma linear e traz referências a etnias diversas. Fernando Marques ressalta que essa variedade “foi fundamental, porque não queríamos falar sobre uma ou outra etnia, mas buscamos um olhar abrangente sobre os povos originários, que são muitos e diversos”.

Entre as referências, estão ainda os trabalhos de autores, artistas, pesquisadores, ativistas e, claro, indígenas, como André D’Elia, Ailton Krenak, Betty Mindlin, Bruce Albert, Daniel Munduruku, Darcy Ribeiro, Davi Kopenawa, Eduardo Viveiros de Castro, José Ribamar Bessa, Manuela Carneiro da Cunha e Raoni Caiapó. Encontros e conversas com estudiosos e lideranças indígenas também fizeram parte do processo.

O espetáculo não tem a intenção de levantar bandeiras, mas de provocar a reflexão sobre um assunto de extrema importância. Adassa Martins ressalta a necessidade “de ecoar essas vozes tão caladas desde 1500. Olhamos tão pouco para os índios, e as questões permanecem as mesmas até hoje”. A atriz conta ainda sobre como desenvolveu uma interlíngua: “Ouvi os pajés e diversos índios falando em documentários e percebi os fonemas mais presentes. A ideia é criar uma fusão do português com uma língua indígena”. Além da interlíngua, há ainda trechos em guarani, traduzidos pelo cineasta indígena Alberto Álvares Guarani.

O figurino de Luiza Fardin, assim como o cenário de Fernando Nicolau, aposta no uso de poucos elementos, mas bastante eloquentes, criando um diálogo com a devastação da natureza, das terras indígenas e do próprio índio. A luz, assinada também por Nicolau, cria ambiências que ressaltam a diversidade de momentos e climas propostos pela dramaturgia e pela direção e que se materializam nos vários tons da atuação de Adassa Martins. A trilha sonora original de João Schmid evidencia transições importantes do espetáculo.

FICHA TÉCNICA

Intérprete: Adassa Martins. Dramaturgia: Fernando Marques. Direção: Fernando Nicolau.

Iluminação e cenografia: Licurgo Caseira. Figurino e caracterização: Luiza Fardin. Trilha sonora original e desenho de som: João Schmid. Preparação vocal: Ilessi.

Direção de arte da comunicação visual e projeto gráfico: Fernando Nicolau. Escultura do busto: Bruno Dante.Fotografia: Imatra. Caracterização das fotos: Luiza Fardin.

Assistente de direção: Luca Ayres. Assistente de figurino: Higor Campagnaro. Cenotécnico: André Salles.Aderecista: Derô Martin.

Produção executiva: Clarissa Menezes. Realização e produção: 1COMUM Coletivo. Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques

SINOPSE: A peça propõe um olhar sobre o universo indígena brasileiro, transitando entre a tradição a tradição e a sua situação atual. “Se eu fosse Iracema” usa referências que vão de mitos e rituais de várias etnias originárias do país a aspectos como a demarcação de terras e outros direitos fundamentais muitas vezes negligenciados.

SERVIÇO

“SE EU FOSSE IRACEMA”

Temporada: de 30 de novembro a 21 de dezembro – quartas e quintas, às 19h.

Local: Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) – Av. Rio Branco 241, Centro. Tel.: 3261-2565

Ingresso: R$ 20 (inteiro) | R$ 10 (meia). Bilheteria: das 16h às 19h

Classificação etária: 14 anos. Duração: 60 minutos




FONTE: https://www.sopacultural.com/se-eu-fosse-iracema-faz-curta-temporada-no-centro-cultural-da-justica-federal/

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Um grito na paisagem

Morris Kachani
06 Novembro 2017 | 13h46
Por Paula Forster

Rio Doce: Avô. Um ancestral. O Watu. “Oh Watu Mirare re, oh Rio de águas boas”.

Samarco: Um raio súbito que se abateu sobre a nossa aldeia, sobre as vidas e a memória desse povo que vive à margem do Rio.

Barragem de Fundão: Um lugar muito distante e remoto, mas que afetou o nosso dia a dia nos últimos dois anos de uma maneira decisiva para o futuro.

Crime Ambiental: Uma ideia de abismo, que não tem resposta, sem eco.

Desastre Ambiental: Um grito na paisagem.

Poder: Uma coisa monolítica. Um bloco obscuro.

“É uma luta da vida inteira, defendendo, tentando fazer com que as pessoas aprendam a ver com o olhar do povo indígena estes rios, estas florestas, montanhas que vêm sendo devoradas pela mineração e garimpo”.




Para Ailton Krenak, líder indígena de 64 anos completados neste ano e nascido no vale do Rio Doce, em Minas Gerais, o sentimento depois da maior tragédia socioambiental da história do Brasil, que completou dois anos no último domingo, dia 05, é de luto.

Em referência ao rompimento da barragem de Fundão (barragem de rejeitos de mineração da Samarco, controlada pelas empresas Vale do Rio Doce e BHP), em Mariana, Minas Gerais, que matou 19 pessoas e devastou a vida de milhares, Krenak diz: “Um sentimento inexplicável, que não dá para verbalizar. É uma perda profunda. Um abismo sem explicação”.

Foram estas as imagens que permearam o nosso começo de conversa, enquanto Ailton visitava o pavilhão “Yanomami”, da fotógrafa Cláudia Andujar, no Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais. “Uma das exposições mais significativas e representativas para a luta da sobrevivência indígena. Visitá-la é sempre um aprendizado”, comenta.

Ao fundo de sua voz, a sonoridade da mata e o assobio de pássaros, enquanto por aqui, o barulho do motor de carros. O que unia os dois cenários era um aparelho de celular, não sem antes ter sido a vontade de compartilhar as histórias que Ailton tinha para contar.

Ailton é uma liderança indígena histórica, reconhecida nacional e internacionalmente. Ficou mais conhecido em 87, quando discursou na Assembleia Nacional Constituinte com o rosto pintado de preto, em sinal de protesto aos retrocessos dos direitos do seu povo.

Na entrevista, falamos sobre as mudanças na essência dos afazeres cotidianos da aldeia Krenak, desde aquele dia 05 de novembro de 2015: “agora as 120 famílias que vivem dentro da reserva indígena, no município de Resplendor (afetado pela lama), estão na margem esquerda de um Rio que eles não podem nem pegar um balde de água”.

Os Krenaks pertencem ao grupo indígena “Botocudos do Leste”, nome que foi dado pelos portugueses àqueles que utilizavam um enfeite (botoques) nos lábios e nas orelhas. Eles são conhecidos também como Aimorés, sendo esta a denominação dada pelos próprios Tupis. À época do Brasil Colonial, mais precisamente em 1808, muitos deles foram massacrados com a “Guerra Justa”, declarada por D. João VI, que durou décadas. Os Krenaks são os sobreviventes deste grupo e vivem hoje em uma reserva criada pelo Serviço de Proteção dos Índios – FUNAI, em Resplendor (MG), de cerca de quatro mil hectares.

*

“Para nós, o Watu (Rio) é uma entidade, não uma bacia hidrográfica igual os brancos falam. Assim como lá na Índia tem o Rio Ganges, que é sagrado e as pessoas entendem isso, nós temos o Watu, que sustentou durante muito tempo a nossa existência e o nosso imaginário. Mas aqui no Brasil, rios podem virar esgoto, porque eles são vistos só como um corpo de água”.

“As crianças hoje olham e perguntam para os pais: “O Rio morreu? O Rio acabou?”. Para uma infância isso é uma marca que não tem como recuperar”.

“Olhar para a terra, o rio e a floresta como mercadoria é um engano muito grande que vai nos enterrar a todos”.

“Começou o caminhão pipa, a privação, a falta de perspectiva em relação ao dia de amanhã, ao futuro. Começou a aflição das pessoas sobre onde e como viver sem o Rio. Os animais que antes podiam circular, agora estão confinados, precisam ser atendidos por veterinários e receber ração de fora. Não tem mais agricultura”.

“Se a gente não estivesse vivendo na situação política que o país está, a gente teria outra configuração deste problema. Mas como estamos todos sendo assaltados, o Rio Doce é apenas mais uma vítima desse assalto monumental”.

“Como o povo indígena vive de uma maneira que expressa o direito coletivo, ele fica muito exposto a essa violência colonialista que quer devastar tudo”.

“Quando as pessoas dizem que os índios são atrasados ou que não querem o progresso estão sendo estúpidas, não sabem sobre si mesmas e querem ensinar os índios a se organizar, a produzir, a sobreviver. Tudo isso é preconceito, é racismo”.

*

O que mudou desde o rompimento da Barragem de Fundão?

A rotina, o cotidiano. Acabaram as saídas de casa para ir ao Rio mergulhar, tomar banho, lavar roupa, cozinhar, pescar, sentar e buscar água. Começou o caminhão pipa, a privação, a falta de perspectiva em relação ao dia de amanhã, ao futuro. Começou a aflição das pessoas sobre onde e como viver sem o Rio. Os animais que antes podiam circular, agora estão confinados, precisam ser atendidos por veterinários e receber ração de fora. Não tem mais agricultura. Uma cerca de 19 quilômetros separa o corpo do Rio das casas, da vila e das pessoas, que estão confinadas em uma paisagem em suspenso. Mais de cem famílias de uma hora para outra ficaram penduradas em uma pergunta: quem é que vai pagar por isso?

Os primeiros meses foram de protestos, denúncias e reclamação. Depois, o Ministério Público e os representantes das empresas começaram a aparecer. Era preciso ver como cadastrar todo mundo no programa emergencial, um acordo das corporações com o governo para a montagem de estruturas que substituiriam o acesso à água do Rio por suprimento de água vinda de fora, a entrega de cesta básica, o reordenamento da criação de animais, o cotidiano que precisava ser reajustado e a ajuda financeira às famílias.
Dois anos sem o Rio Doce. O que isso representa para o senhor?

Acho que mais importante é o que representa para todo mundo, para essas centenas de famílias…

Sim, o que representa para a Aldeia Krenak?

Uma ruptura muito grande com o cotidiano, com a memória que as pessoas tinham daquele lugar e a insegurança que está prevalecendo na rotina.

O senhor imaginava que isso pudesse acontecer um dia?

Há muitos anos eu venho reclamando da falta de respeito das pessoas com o Rio Doce, porque a instalação da cidade, o lançamento de esgoto e a construção das barragens vêm acontecendo em um acumulado de mais de 50/60 anos. A gente vem percebendo um crescente de agressão contra o corpo do Rio, que chegou ao absurdo de ficar em coma. Mas é claro que nenhum de nós previa um desastre com esta força, capaz de tirá-lo do nosso alcance. Eu imaginava que ele estava sendo assaltado a prestações, mas não que de uma hora para outra ele iria ser sequestrado.

Qual era a luta pela preservação do Rio antes do desastre?

Há mais de vinte anos a gente começou a lutar pela recomposição das nascentes, da mata, da vegetação e da biomassa, tentando combater o que poderia ameaçar o ecossistema do Rio. Nós lutamos muito contra o licenciamento da construção da última barragem, na usina hidrelétrica de Aimorés, inaugurada em 2005, mas ele foi feito à revelia dos Krenaks e de outras comunidades de ribeirinhos. Nós sabíamos que aquilo era um grave ataque, porque ia mudar o fluxo das águas, o sistema da vida do rio e dos peixes. Os pescadores reclamaram, mas não adiantou nada. E se o Rio não estivesse em coma, ele ia continuar sendo picotado por barragens: tinham mais cinco ou seis projetadas para a região do médio Rio Doce.

O significado da terra, do rio, que são fortes e emblemáticos para vocês, foram ignorados?

Mas o rio e a terra deveriam significar a mesma coisa para toda a humanidade, não só para os índios, mas para os brancos, os negros… Olhar para a terra, o rio e a floresta como mercadoria é um engano muito grande que vai nos enterrar a todos. O crime que aconteceu foi uma espécie de suspensão da ideia de que o Rio é um organismo exposto à violência, que pode ser usado de toda maneira. Para nós, o Watu é uma entidade, não uma bacia hidrográfica igual os brancos falam. Assim como lá na Índia tem o Rio Ganges, que é sagrado e as pessoas entendem isso, nós temos o Watu, que sustentou durante muito tempo a nossa existência e o nosso imaginário. Mas aqui no Brasil, rios podem virar esgoto, porque eles são vistos só como um corpo de água. O Rio Doce estava virando um Tietê. Ao longo prazo, talvez, ele fosse ficar igual.

Como o senhor vê o posicionamento da Samarco?

Não só da empresa, mas de todo o sistema de controle ambiental, das agências de licenciamento, governo do Estado, governo Federal, Ministério do Meio Ambiente, Ibama, ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e todas as agências que deveriam ter alguma responsabilidade sobre este evento são omissas, inclusive a Samarco, a Vale do Rio Doce e a BHP. Esses consórcios que exploravam o Rio agora ficam paralisados, sem demonstrar uma consciência sobre a responsabilidade que têm. Eles agem por obrigação e pressão. Isso nos deixa muito preocupados, porque como as agências do Estado estão todas sem forças para atuar, o interesse privado acabou ficando com o protagonismo desta história. É um absurdo que o governo brasileiro não tenha nada para dizer sobre um Rio que de uma hora para outra é anulado da nossa paisagem. Nós falamos que o Watu está em coma. Mas tem gente que já falou que ele está morto.

Como o sr. avalia a atuação da Fundação Renova, criada pela Samarco para gerenciar a tragédia, continua com as suas atividades em operação?

Algumas ações emergenciais vêm sendo executadas pela Vale, Samarco e BHP desde o mês de dezembro de 2015, com entrega de água potável, suprimentos para as famílias atingidas e algumas obras de infraestrutura como pontes, bueiros, reservatórios de água. Além de pagamentos de valores em conta de famílias que são assistidas em caráter emergencial.

Nestes dois anos, a Samarco fez algo de bom? Teve alguma atitude positiva?

A Samarco é bode expiatório da Vale e da BHP, que ocultam responsabilidade direta pelo crime ambiental deixando recair sobre a operadora local todo ônus desta tragédia sem precedentes.

O senhor é esperançoso?

Eu não tenho dúvidas de que o Rio tem mais capacidade de resistir do que os viventes da beira dele. Daqui a trinta, cinquenta, cem anos, ele pode ter conseguido fazer a sua autolimpeza, mas a vida das pessoas que vivem ao longo dos 650 km de extensão dele, os pescadores, as tartarugas marinhas… eles vão ficar afetados por muito tempo e talvez a recuperação não seja igual ao do corpo do Rio.

As crianças não vão conseguir usufruir do Rio da mesma forma que o senhor usufruiu.

As crianças hoje olham e perguntam para os pais: “O Rio morreu? O rio acabou?”. Para uma infância isso é uma marca que não tem como recuperar. Dizer para uma criança que vivenciou uma violência, que viu o Rio ser roubado da sua infância, que daqui uns vinte, trinta, quarenta anos, ele vai estar restaurado, mesmo que isso fosse verdade, é uma promessa que não vai mais alcançar o tempo dela. A criança não existe mais neste tempo. Se ela vê esse Rio na vida adulta, nem ela é a mesma pessoa, nem o rio é o mesmo.

Comenta-se que a Samarco já sabia de algumas fissuras na barragem…

Eu não acompanho a história de funcionamento deles, como eles obtêm o licenciamento e como se autofiscalizam. Mas o que depois desse grave crime ficou sendo denunciado é que eles se omitiram da responsabilidade de fazer o monitoramento e as necessárias manutenções da barragem, que eles sabiam que poderia se romper. Eles, inclusive, teriam incluído isso no programa, de que se eventualmente a barragem se rompesse, ela seria estabelecida em um segundo ponto. É horrível imaginar que eles poderiam matar uma vila como aquela de Bento Rodrigues e depois transformar outro lugar em contenção da barragem, ampliando a capacidade em cima da história e da vida de dezenas de pessoas que foi avassalada pela lama. Se o cálculo deles era de que iriam assaltar aquela vila e conseguiriam resolver isso como se fosse um problema doméstico, agora eles têm um Rio inteiro na conta deles e eu não sei como eles vão responder isso para a humanidade: que responsabilidade social e ambiental a Samarco tem para poder continuar operando? Ela deveria ser questionada sobre isso. Não pode ter uma licença de operação social, depois de ter cometido um crime deste.

Ela continua operando?

Sobre as operações da Samarco, eu não posso responder, mas creio que ainda não teve renovada sua licença de operação. Ainda está sob investigação.

Foram três distritos rurais completamente devastados e…

E centenas de munícipios que tiveram a realidade socioeconômica totalmente devastada também. Pensar somente o desastre da lama sobre a vila e sobre a cidade é ignorar o impacto que ela teve sobre a vida de milhares de pessoas, chegando até o mar, até o litoral, atingindo a vida marinha, o mangue. Não é brincadeira não. É uma coisa muito séria. Se a gente não estivesse vivendo na situação política que o país está, a gente teria outra configuração deste problema. Mas como estamos todos sendo assaltados, o Rio Doce é apenas mais uma vítima desse assalto monumental.

Como você define esta situação política?

Ausência de governança.

E a configuração do problema à qual o senhor se refere, qual seria?

A gente teria as agências de regulação, de licenciamento e monitoramento atuando ativamente e identificando os responsáveis. Não deixariam que toda a diretoria desta empresa andasse solta por aí, como se não tivesse praticado nenhum crime contra a vida, contra a natureza e contra o meio ambiente. Multas não pagam a vida que eles tiraram.

O senhor, que luta desde a década de 80 pelos direitos dos povos indígenas, enxerga como esta situação?

Eu defendi o capítulo dos direitos dos índios que está na nossa constituição de 1988, mas ele tem sido tão desmerecido que eu continuo lutando pelos mesmos direitos até hoje. De dois ou três anos para cá, a situação política do Brasil se deteriorou tanto que a demanda dos índios por seus territórios deixou de ser prioridade, tanto da FUNAI quanto do Ministério da Justiça. Virou um conflito entre os interesses dos índios e das outras especulações de terra, como a mineração e o agronegócio, que está avançando em cima das terras indígenas de uma maneira brutal, enquanto o Estado está desinteressado e descompromissado em fazer as demarcações.

Existiu algum período em que essa questão da demarcação era vista com mais prioridade?

Sim. Na década de 90 e a última década até 2010 ainda não havia tantas contestações de outros setores em relação à demarcação das terras indígenas. De uns oito anos para cá, essa questão passou a ser judicializada. Com a PEC 2015 pretende-se colocar um marco temporal para o reconhecimento das terras, que só poderão ser demarcadas se os índios já estiverem neste local antes da constituição de 1988 ou até este ano. Aí vira uma disputa com os fazendeiros.

No tempo de hoje, o que é ser índio no Brasil?

É ter que lutar a cada dia para fazer se respeitar. Proteger a vida, proteger a aldeia, proteger a nossa própria segurança pessoal. Manter-se vivo. Tentar proteger os lugares onde nós vivemos – o rio, a floresta – com a nossa própria vida, porque o Estado está totalmente rendido. É uma situação de “salve-se quem puder”.

O direito à vida, o direito de ir e vir e de se expressar estão todos em suspenso. É uma disputa muito grande do interesse privado sobre o interesse comum. Como o povo indígena vive de uma maneira que expressa o direito coletivo, ele fica muito exposto a essa violência colonialista que quer devastar tudo. Belo Monte, lá no Xingu; os índios Kaiowá Guarani, no Mato Grosso do Sul; os Guaranis, no Pico do Jaraguá, em São Paulo. Tudo isso são exemplos gritantes da violência que tem sido feita contra o interesse coletivo dos índios.

E a identidade do povo indígena hoje no Brasil? Como fazer para resistir?

Enquanto a gente tiver memória de quem somos, nós vamos manter a nossa identidade a custo de muita resistência, de muita luta. A luta pela terra é uma expressão desta identidade. O índio luta porque tem uma identidade com essa terra, muito antes de se chamar Brasil. Nós fomos invadidos e temos que resistir. E tem outras questões que devem ser respeitadas também: a gente não tem que ser obrigado a se integrar no sistema de desenvolvimento do branco. Quando as pessoas dizem que os índios são atrasados ou que não querem o progresso estão sendo estúpidas, não sabem sobre si mesmas e querem ensinar os índios a se organizar, a produzir, a sobreviver. Tudo isso é preconceito, é racismo.

Sobre os comentários de que a lama não é tóxica, como o senhor reage a eles?

Eu ouvi um geólogo falar isso… Eu acho que se ele pensa mesmo isso, ele deveria dar um mergulho no Rio Doce. Ele poderia levar a família dele lá, dar um mergulho e eventualmente levar um galão de água para casa e beber. Seria como alguém dizer que o Tietê não é tóxico, que o Tietê está bom. É muita cara de pau alguém afirmar isso. Se não estivesse nada tóxico no Rio, por que a vida dele toda estaria morta? Por que os peixes morreram? Por que até as algas morreram? Por que não tem nada? Nem bactéria? Ele virou um plasma de lama, e que lama é essa? Se as pessoas acham que não é tóxica, então que bebam ela.

O senhor acha que dá para explorar o minério de ferro de uma forma menos danosa? Como explorá-lo de uma forma mais responsável?

O Estado brasileiro precisa se estruturar com meios e recursos necessários a fiscalização e regulamentação destas atividades de alto risco para a sociedade e o meio ambiente. Seria uma condição para possíveis explorações minerárias atuarem dentro da lei.

Como o senhor expressa o seu sentimento em relação a esta tragédia?

O meu sentimento é o mesmo do de ver um avô em coma. A gente fica na expectativa de que ele volte a respirar.

Significado de passado, presente e futuro para o senhor?

Passado: As pessoas escolheram a margem desse rio, porque representava comida, remédio, beleza e vida.

Presente: o Rio significa suspensão da vida destas pessoas.

E o futuro? É uma incógnita. As pessoas não sabem o que vai ser do Rio Doce. Ele está temporariamente em coma.


FONTE: http://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/um-grito-na-paisagem/

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Começa hoje seminário na Fale sobre crítica literária

Mesa sobre literatura indígena e quilombola é um dos destaques de evento organizado por discentes da pós-graduação

segunda-feira, 30 de outubro 2017, às 06h00
atualizado em terça-feira, 31 de outubro 2017, às 10h20




Líder indígena Ailton Krenak vai participar de painel temático sobre crítica e alteridade



Conferência do professor Anco Márcio Tenório Vieira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista na obra do crítico Antonio Candido, abre nesta segunda-feira, dia 30, o Seminário de Pesquisa Discente do Programa de Pós-graduação em Literatura (Split), da Faculdade de Letras (Fale). O evento, que homenageia o crítico, morto em maio deste ano, terá início às 10h30, no auditório 1007 da Fale.

A programação se estende até esta quarta-feira, 1º de novembro, com mesas de comunicações, conferências, painéis temáticos, lançamentos de livros e atividades culturais.

Outro destaque desta edição é a presença de lideranças indígena e quilombola. Ainda nesta segunda-feira, Ailton Krenak, ambientalista e escritor, e Makota Kidoiale (Cassia Cristina), ativista do movimento negro e quilombola, apresentarão, a partir das 19h, no auditório 1007, o painel temático Literatura indígena e quilombola: por uma revisão do papel da crítica e da academia frente à alteridade.

Com o tema A crítica literária contemporânea produzida no Brasil, o evento é organizado anualmente por estudantes do programa de Pós-graduação em Estudos Literários (Pós-Lit), da Fale. Espaço de divulgação das pesquisas desenvolvidas no programa, o seminário tem o objetivo de estimular o diálogo e a reflexão acadêmica e dar visibilidade às produções científicas dos alunos-pesquisadores dos programas de pós-graduação em Letras e da grande área de Humanidades.

O evento é aberto à comunidade acadêmica e ao público externo. A programação e outras informações podem ser obtidas pelo telefone (31) 3409-5112, no site do Split ou pelo e-mail viisplit@gmail.com.

Homenagem

O programa Universo Literário, da Rádio UFMG Educativa, conversou, nesta segunda-feira, com o pesquisador Rodrigo de Agrela, um dos organizadores do seminário. Ele falou sobre a importância da obra de Antonio Candido.


FONTE: https://ufmg.br/comunicacao/noticias/seminario-da-fale-conta-com-participacao-de-liderancas-indigena-e-quilombola

terça-feira, 4 de julho de 2017

“Não foi um acidente”, diz Ailton Krenak sobre a tragédia de Mariana

Esta notícia está associada ao Programa:
Povos Indígenas no Brasil


Em depoimento à equipe Povos Indígenas no Brasil do ISA, o líder indígena fala do impacto da tragédia de Mariana (MG), que completou um ano no dia 5/11, sobre o território de seu povo


No dia 7 de setembro de 2016, pesquisadores do tema Povos Indígenas no Brasil, do ISA, entrevistaram o líder Ailton Krenak sobre os impactos no território krenak do desastre de Mariana (MG), o maior crime socioambiental já registrado no Brasil e que completou um ano no último dia 5/11.






Para ele, a derrama de rejeitos da barragem do Fundão, da mineradora Samarco/BHP Billiton, da Vale, que devastou o distrito de Bento Rodrigues e o Rio Doce, de Minas Gerais até o Espírito Santo chegando ao Oceano Atlântico, foi um tiro de misericórdia em um povo que sofre há décadas com os impactos da mineração em suas terras: “Eles botaram o rio em coma e eu quero ver quem é que vai conseguir sobreviver sem água. Se os Krenak aguentaram toda essa tortura ao longo de quase 100 anos, inaugurada na década de 1920, agora com o rio morto, como vai ficar?”, questiona.
A íntegra da entrevista, em que Krenak fala ainda sobre a luta pelo reconhecimento de suas terras em Minas Gerais, sobre os ataques aos direitos dos índios e a política dos "brancos" para o Brasil, você confere na próxima edição do livro Povos Indígenas no Brasil 2011-2015, do ISA.
Veja abaixo alguns trechos do depoimento de Ailton Krenak a respeito do crime ambiental de Mariana.








“O evento mais dramático que o povo da Bacia do Rio Doce vive, segue vivendo, é essa derrama de veneno na cabeceira do rio. Aquela gosma da Samarco e da Vale, aquele material tóxico, recobriu as lajes de pedra com uma coisa plástica, que não deixa nem que o lodo, o líquen, que novos materiais orgânicos se constituam ali para criar um ambiente de vida aquática. A ictiofauna, as espécies de água, foram todas eliminadas.
Não foi um acidente. Quando eu ouço perguntarem sobre ‘o acidente’ de Mariana, eu reajo dizendo que não foi um acidente. Foi um incidente, no sentido da omissão e da negligência do sistema de licenciamento, supervisão, controle, renovação das licenças, autorização de exploração. O Estado e as corporações constituíram um ambiente promíscuo e delinquente, em que ninguém controla ninguém e no qual os engenheiros e os chefes de segurança, que informam os relatórios, também sabem que não tem consequência nenhuma se eles matarem um patrimônio inteiro, uma vila inteira ou, eventualmente, se matarem uma comunidade inteira.
Eles estão assentados sobre uma história colonial miserável, em que acham que fazem um favor enorme de estar comendo aquelas montanhas, empacotando aquelas montanhas e registrando um aumento no PIB brasileiro. Essa mentalidade estúpida, desse capitalismo que não dá nem pra chamar de selvagem, só pensa na exaustão dos recursos da natureza – que eles muito apropriadamente chamam de ‘recursos naturais’ e, cinicamente, matam rios, montanhas, florestas com a justificativa de que estão fazendo o desenvolvimento.
Watu, que é como nós chamamos aquele rio, é uma entidade; tem personalidade. Ele não é um ‘recurso’ como os pilantras dos engenheiros da Vale, administradores do Governo, da Agência Nacional das Águas, do Comitê de Bacias sugerem. Eles criam toda essa linguagem despistante, malandra, para sugerir que foi um acidente, que eles usam recursos e que as pessoas, os coletivos, as comunidades que são atingidas por esse dano, são vitimadas por esse evento, são ‘beneficiários’. Os beneficiários da presença dessas corporações na nossa região ficam sujeitos a acordar soterrados por uma lama venenosa.
Dia 5 de novembro [de 2016] completa um ano desde que milhares de famílias foram, de uma hora para outra, divorciadas do corpo do rio. Os municípios que estão ao longo dessa bacia têm uma população de um milhão e meio de pessoas, diretamente afetadas pela derrama da lama tóxica sobre o Rio Doce. “Diretamente” significa que, indiretamente, pode-se colocar isso na casa dos dez milhões. Mas e a biodiversidade? A Bacia do Rio Doce foi cauterizada. Agora, aquele corredor de 800 km é uma calha morta. E surpreendeu a todos nós que, logo nos primeiros 15 dias daquele grave desastre, as pessoas tenham saído em defesa da Vale e da Samarco, dizendo: ‘Ah, vamos recuperar o Rio Doce’. Ora, o que nós temos, de fato, é que a Bacia do Rio Doce vem sendo assaltada pelas atividades de mineração e também pela implantação das indústrias de processamento de celulose e de minério”.
Impactos históricos
“O Rio Doce, o Watu, pode ser pensado como um lugar onde, na primeira metade do século XX, até a década de 1920, os Krenak viviam ainda com a inocência de ter um rio sagrado, carregado de significado, de símbolos, onde os espíritos da água interagiam com as pessoas – de onde as famílias tinham certeza de que podiam tirar comida, remédio. Quando a atividade de abrir a estrada de ferro Vitória-Minas se iniciou, foi o fim da vida livre dos Krenak no Rio Doce. Há imagens que mostram os engenheiros aliciando os índios para cortar troncos na floresta do Rio Doce para fazer os dormentes. E, como os índios tinham curiosidade da presença daqueles trabalhadores, eles acabaram atravessando o rio e iam para a margem direita para ver os brancos, ficar perto deles. Essa curiosidade dos Krenak custou caro, porque pegaram muitas doenças dos brancos e morreu muita gente; crianças, velhos. Um dos marcos do desastre que tem sido a ocupação do Rio Doce para os Krenak é a abertura da ferrovia Vitória-Minas. Aí é que a vida dos índios virou um inferno.
E, com todo o abuso do Estado, todo o autoritarismo característico daquela época, os índios eram como moscas. Se o trem matasse meia dúzia deles, não fazia diferença alguma. Há relatos dos antigos sobre o tanto de gente que morria atravessando a ferrovia, porque não tinha nenhum sistema de vigilância, nem de alerta, para explicar aos índios que não podiam atravessar o leito da ferrovia – ou que não podiam caminhar acompanhando os trilhos do trem. Eles eram surpreendidos com o trem em cima deles, às vezes.
É desse tempo que os Krenak deram pro trem o nome de Guapo. É uma expressão muito curiosa, porque é como se eles estivessem chamando o trem de ‘braço mecânico’. É uma ideia totalmente abismada; eles achavam que aquela ferragem que movimenta o trem era uma coisa viva, um braço. A ferrovia foi se consolidando cada vez mais. Colocou as bitolas largas, máquinas maiores: a terra dos índios diminuindo e a máquina aumentando. As nossas montanhas virando mercadoria nesses trens e vagões; todas composições grandes para transportar minério para o porto do Espírito Santo.Toda essa industrialização da década de 1940 e 50 para cá, sangra a vida dos Krenak, encurralou as famílias. Essa derrama agora foi o tiro de misericórdia.
A aldeia está sendo abastecida por dois caminhões pipa que passam nas casas enchendo caixas d'água duas vezes por semana e entregam nas casas das famílias um fardo com 20 garrafas de 2 litros [de água mineral], porque o Ministério Público obrigou a Vale e a Samarco a fazerem a entrega para essas famílias que foram vítimas desse crime ambiental incalculável.
Você imagina como uma comunidade ou uma família vai criar bichos sem água? Qual sustentabilidade tem manter aquela população bebendo água mineral? Isso parece aquela história da Revolução Francesa, próximo da tomada da Bastilha, quando falaram para a rainha que o povo estava sem pão e ela respondeu: 'Mandem comer brioches!'. Então, esses cretinos, quando disseram que o povo do Rio Doce estava sem água, eles falaram: ‘Bebam água mineral!’”
Um rio em coma
“Mesmo que a empresa seja condenada a suprir aquela gente com água mineral naquele lugar, parece que você está colocando uma pessoa num balão, botando soro nela, oxigênio, e ela vai ficar em coma como o rio. O rio está em coma. De certa maneira, essa prontidão que as pessoas estão vivendo na margem do rio agora deixa elas no mesmo estado simbólico de coma em que o corpo do rio está. Eu vejo isso como uma coisa tão assustadora, que tenho dificuldade de falar no Watu sem me revoltar.
A desgraça de nós estarmos vivendo um momento político extremamente pobre também não cria canais de interlocução. Se não fosse o Ministério Público ficar esgoelando em cima desse episódio... O Executivo estadual anda de joelhos para as mineradoras; e o Governo Federal, a [então] ministra do meio ambiente sobrevoou a Bacia do Rio Doce e teve a cara de pau de dar um relatório três semanas depois, dizendo que a empresa tinha sido vítima de uma tragédia. 'A empresa foi vítima de uma tragédia'! O governador Fernando Pimentel (PT/MG) se reuniu com os diretores da Samarco e deu uma entrevista dizendo que era solidário com a empresa.
O ICMBio e o Ibama não têm competência para avaliar a extensão do desastre, então contrataram uma consultoria internacional, que concluiu que houve um abalo sísmico e que nem é possível fazer um seguro – porque essas grandes corporações têm seguros bilionários dessas minas. Mas, ao concluir um laudo – uma auditoria interplanetária! – dizendo que foi um acidente sísmico, você não só dá um chapéu no seguro: dá um chapéu em todo mundo, um chapéu tipo mexicano, um amplo chapéu em todos os otários do planeta.
Tenho a impressão de que eles estão arrumando uma maneira de dar no pé, sair da cena do crime, sem nem pedir desculpa. Se continuarem espremendo a Vale e a Samarco, eles podem arrumar uma maneira de a Samarco decretar insolvência, falência, ou qualquer coisa do tipo, sumir daqui e reaparecer em qualquer outro continente depois, detonando o planeta, sem pagar a conta do que eles deixaram pra trás.
Esse evento denuncia um quadro global, no qual paisagens, territórios e comunidades humanas fazem parte de um pacote que essas grandes fortunas, através das suas corporações, continuam tratando como material descartável. Nós somos ajuntamentos nada relevantes para esses caras e eles nos manipulam do jeito que querem. Somos colônias avassaladas. Esses caras fazem o que querem com os nossos territórios, nosso litoral, nossa floresta.
O Rio Doce só grita de uma maneira incontida o fato de estarmos todos sujeitos a ser plasmados por uma meleca tóxica dessas em qualquer lugar e não ter nem a quem reclamar. Nós estamos em maus lençóis”.




Entrevista realizada por Marília Senlle, Mario Brunoro, Rafael Monteiro Tannus e Tatiane Klein



FONTE: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/nao-foi-um-acidente-diz-ailton-krenak-sobre-a-tragedia-de-mariana

sexta-feira, 23 de junho de 2017




Um dos maiores líderes políticos e intelectuais dos povos indígenas no Brasil, Ailton Krenak está confirmado no Cine Kurumin - Festival de Cinema Indígena! Krenak compõe o júri do festival e fará a conferência de abertura, com o tema “Da minha aldeia vejo o mundo”, no dia 12 de julho, às 18h30, na Sala de Arte do Museu (Corredor da Vitória). Imperdível!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Afinal de contas, o que o índio brasileiro espera do Brasil?

Yahoo Notícias Yahoo Notícias7 de junho de 2017



Atualmente existem 462 territórios classificados como Terras Indígenas (TI) no Brasil. Habitadas por cerca de 300 povos, representam apenas 12% do território nacional. Só em 1990 o Estado reconheceu a necessidade de demarcar e proteger as terras pertencentes aos povos nativos. Mas isso não é o suficiente. Afinal, os índios deveriam ser reconhecidos como os brasileiros originais. O que os descendentes de povos nativos precisam para serem reconhecidos adequadamente?

Para ter uma idéia das principais demandas do povo indígena brasileiro, nesta série de quatro matérias, o @yahoobr conversou com dois dos principais líderes do movimento no país e traçou um perfil da luta e das dificuldades atuais dos índios no Brasil.

Almir Narayamoga Suruí é hoje uma das lideranças políticas indígenas do país. Filiado à Rede – RO, hoje vive e defende a Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal, no mesmo estado. Ele nasceu apenas cinco anos depois do contato de sua tribo com o homem branco. Aos quinze anos resolveu estudar biologia, na Universidade Federal de Goiás, onde desenvolveu pesquisas para defesa étnica e ambiental e lutou contra o desmatamento. Ele propôs ao Google um projeto de mapeamento por satélite da reserva Suruí. Na ocasião ajudou a catalogar etnias, aldeias, locais de confrontos e pontos sagrados da comunidade local.

Almir esclarece que a situação indígena é mais delicada que parece aos olhos de quem apenas observa o assunto à distância, como é o caso da grande maioria da população brasileira.

“Ao definir o indígena brasileiro temos que ver vários aspectos: índios isolados são aqueles que voluntariamente se recusam a fazer contato com o não-indígena. Estes estão totalmente vulneráveis diante do avanço do agronegócio, da construção de estradas e hidrelétricas, das minerações e das invasões de terras. Suas vidas correm perigo constante e eles estão totalmente desamparados pelo poder público”, explica.

“Os indígenas contatados estão na luta para manter os territórios já demarcados e para que se demarquem os que ainda não foram demarcados. Eles querem desenvolver de forma sustentável sua agricultura e alternativas econômicas que mantenham a floresta em pé, como projetos de Sistemas Agroflorestais (SAF), pisciculturas e reflorestamentos de áreas degradadas. O índio pode contribuir no combate ao aquecimento global, mas precisa de uma certa autonomia”, pontua.

De acordo com os dados demográficos fornecidos pela Funai e pelo Censo de 2010 do IBGE, a população indígena no país atualmente conta com quase 900.000 indígenas. Todos os estados do Brasil são habitados por índios. Sendo que pouco mais de 500.000 vivem em zonas rurais e cerca de 315.000 em regiões urbanizadas.

217 diferentes línguas indígenas registradas são faladas no país e esse dado é relevante. Mais de 17% da população indígena não fala português, especialmente entre as 69 comunidades que não tiveram contato como homem branco.

Curiosamente, o percentual de indígenas em relação à população branca subiu de 0,2%, em 1991, para 0,4% no ano 2000, um aumento de pouco mais de 10% na população total, refletido no aumento de 150% na quantidade de pessoas que se declararam indígenas no último Censo.

Ailton Krenak é um dos líderes do movimento indígena no Brasil desde a década de 1980, quando fundou o Núcleo de Cultura Indígena. “O movimento indígena organizado fez uma campanha pelo país inteiro coletando assinaturas para uma emenda na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, que assegurava o meu direito de representar o interesse desses coletivos indígenas na Comissão de Justiça, na Comissão de Direitos Humanos, nas comissões temáticas que debateram os direitos indígenas no Congresso. Fui então designado para fazer a defesa pública desses princípios que estão na Constituição. Quando eu fiz uma intervenção no Plenário, pintando o meu rosto de jenipapo, eu estava fazendo a defesa pública daquela emenda”, relembra o representante Krenak.

Depois de uma carreira de militância, Ailton Krenak se estabeleceu na região original de seu povo, no Médio Rio Doce, Minas Gerais. Graduou-se produtor gráfico e jornalista e durante a militância, publicou o livro “A Outra Margem do Ocidente”. Em 2016, a Universidade Federal de Juiz de Fora lhe concedeu o título de Professor Doutor Honoris Causa, onde hoje leciona disciplinas aplicadas à cultura indígena.

“Na Constituinte, houve um forte confronto do que, naquela época, chamavam de ‘Centrão’, uma configuração muito parecida com essa do nosso Congresso em que (representantes do) agronegócio e conservadores em geral”.

Que país é esse?

Após séculos de perseguição política, social e econômica, os índios continuam lutando contra os poderes do capital e da política, uma combinação que não defende nenhum dos seus direitos.

“Precisamos de educação formal , mas num modelo que respeite a cultura indígena. Não adianta dizer que o ensino é diferenciado e ir nas escolas das aldeias repetir tudo que é do currículo das escolas dos não indígenas. O MEC (Ministério da Educação) deve inserir no currículo escolar e na merenda escolar conteúdos e matérias próprios do povo indígena, sempre lembrando que cada povo tem cultura e hábitos diferentes”, destaca Almir Suruí.

Krenak concorda com uma cultura mais solidária diante das diferenças antropológicas. “O capítulo dos índios na Constituição de 88 teve uma importância tão grande que ele inspirou mudanças nas constituições no Equador, na Colômbia, no México, no Perú, na Bolívia… Os países da Bacia Amazônica começaram a discutir a possibilidade dos povos de existir com o direito a manterem suas línguas maternas e viver em territórios tradicionalmente ocupados por eles”, observa.

Para Krenak, as constituições dos países vizinhos avançaram muito mais do que a nossa. “A Constituição Brasileira não reconhece outra nação que não seja a nossa, brasileira. Esse debate sobre Estado-Nação já está superado e o que se discute hoje são Estados plurinacionais. Dentro de uma mesma fronteira de um Estado-Nação você tem plurinações com outros povos, outras línguas. A nossa Constituição diz que a Língua Portuguesa é a língua do Brasil.ignorando toda a nossa pluralidade. Essas diferenças não são ameaças e nem ameaçam a soberania nacional, mas são uma riqueza adicional”, opina.


Na saúde e na doença

Almir Suruí é direto ao pedir o básico para a sobrevivência de seu povo. “É preciso garantir atendimentomédico nas aldeias. Assim como na educação, não basta fazer discurso que é diferenciado, tem que realmente ser. Tradições e conhecimento precisam ser preservados, mas não só: a cultura e medicina indígena têm de ser ministradas nas universidades, para garantir um atendimento e intercâmbio mais suave”, diz.

Krenak adiciona: “Eu estive participando de conferências em Portugal onde eles estavam celebrando o ano Ibero-Americano. E o que é isso? É exatamente o que Portugal e Espanha fizeram na colonização das Américas. Isso refletiu na formação desses povos e reflete até hoje na relação que os Estados Nacionais têm com as populações indígenas originárias. Na nossa vizinha América Hispânica existe um tipo de herança colonial que se reflete no trato com o povo originário dessas terras, os indígenas”.

Almir lembra que um mito precisa ser derrubado: o de que o índio é o único protetor da natureza. “Não há como não abraçar o desenvolvimento econômico sustentável. Os índios querem uma economia que respeite a floresta em pé, onde possamos desenvolver economicamente os recursos da floresta, gerando renda e qualidade de vida. Temos sementes, castanhas, óleos, e tantos outros benefícios que precisam receber incentivos do governo para utilizar todos esses bens de maneira tal que se ganhe renda e a floresta permaneça em pé.”

País do futuro?

Em 2007, Almir Suruí tornou-se conselheiro do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e viu de perto como funciona a política por trás de assuntos fundamentais para as causas de seu povo. Hoje distante do órgão ele reflete sobre sua experiência. “O CNPI tem o papel e competência para propor as diretrizes e prioridades para a política nacional indigenista, bem como monitorar se os órgãos responsáveis por essa política estão cumprindo com seu papel. E eu digo que não estão. Basta ver o que está acontecendo com os conflitos de terras. Se elas já estivessem demarcadas não teríamos os problemas que temos hoje no campo”, pondera o líder indígena.

“Eu não acredito que vamos resolver isso de uma hora para outra e nem sozinhos. O Estado Brasileiro é colonialista. O Judiciário, o Executivo e o Legislativo estão cooptados pela ‘casa grande’, pelo ‘dono do engenho’ para usar uma imagem bem colonial. E as populações, que não são donas de terra, de garimpos, da indústria ou de toda a máquina de produção do capitalismo, não são representadas dentro dessas três grandes entidades do Estado. O Estado vai ser sempre configurado para atender esses casos, para atender esses interesses”, conclui Ailton Krenak.

Há uma lacuna entre o que o indígena deveria receber de uma sociedade que obliterou seu modo de vida e o que de fato é feito pelo Estado para preservá-lo. Os mais de 900 mil índios do Brasil talvez não tenham como recuperar o estrago feito pela colonização branca e eles estão cientes disso. Contudo, é plenamente possível integrar de fato o índio na pauta governamental no que diz respeito a direitos básicos como educação, saúde e segurança. Exigir que o governo acolha os índios como cidadãos de primeira classe não é nada além do que a Constituição já exige.



Por Vitor Valencio – @vitorvalencio

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/afinal-de-contas-o-que-o-indio-brasileiro-espera-brasil-183958704.html

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Líder indígena espera que preocupação da ONU com índios tenha repercussões no Brasil

O líder indígena brasileiro Ailton Krenak afirmou hoje esperar que a preocupação manifestada pela ONU com a situação dos índios no Brasil tenha repercussões no país, onde, considera, a situação destas populações "piorou muito" no último ano.

"Espero que uma manifesta preocupação da ONU [Organização das Nações Unidas] sobre a situação dos povos indígenas do Brasil possa repercutir dentro do Brasil, porque a situação jurídica e política das populações indígenas piorou muito de há um ano para cá. Agravou-se muito", disse hoje Ailton Krenak em entrevista à agência Lusa em Lisboa, onde está para participar no ciclo "Questões indígenas: ecologia, terra e saberes ameríndios" do Teatro Municipal Maria Matos.

A ONU disse na quinta-feira estar preocupada com o "grave" ataque levado a cabo por proprietários de terras contra os índios da tribo Gamela, que ocupavam terrenos no Estado do Maranhão, no nordeste do Brasil.

Os ataques, levados a cabo por um grupo de 200 homens ligados aos agricultores locais, munidos de machados e armas de fogo, causaram 13 feridos.

Os índios da tribo Gamela afirmam que as terras, sobre as quais há um litígio, lhes foram doadas no período colonial, mas que eles foram expulsos a partir dos anos 1970 na sequência da expansão agrícola.

Desde 2015 têm vindo a ocupar novamente centenas de terras, o que deu lugar a confrontos com os produtores. Nesse ano, pelo menos 137 índios foram assassinados no Brasil, elevando a 891 o número de mortos desde 2003, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Para Ailton Krenak, a Constituição de 1988 é "muito positiva na afirmação dos direitos dos povos indígenas", o problema está na aplicação da lei.

O líder indígena considera que "do ponto de vista da formalidade jurídica os povos indígenas têm os seus direitos territoriais assegurados, o que acontece é que o executivo que deveria implementar a Constituição está a agir claramente de maneira abusiva".

"Tomara que essa atenção da ONU, do relatório sobre Direitos Humanos, tenha algum efeito, consiga de alguma maneira chamar a atenção das autoridades no Brasil", disse.

FONTE: http://www.dn.pt/lusa/interior/lider-indigena-espera-que-preocupacao-da-onu-com-indios-tenha-repercussoes-no-brasil-7220228.html