quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Etnocídio dos Krenak é tema de documentário disponível no Youtube

Com depoimentos de nativos e de especialistas, filme atesta a resistência da tribo diante da ameaça constante de extermínio

Jamyle Rkain 18/10/2016 15:32, atualizada às 18/10/2016 15:45



Em meados de 2014, o Ministério Público Federal coletou material para investigar a violência histórica contra o povo Krenak, oriundo da região leste de Minas Gerais. O objetivo era fornecer dados aos estudos da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, responsável pela temática dos povos indígenas e tradicionais. As informações também serviram como base para o documentário Guerra Sem Fim – Resistência e Luta do Povo Krenak, produzido pela Unnova e lançado em agosto, na Semana da Verdade 2016. Depois de exibido na programação da Virada Sustentável, o filme foi disponibilizado no Youtube.

Durante quase trinta minutos, o espectador acompanha os momentos cruciais em que o povo Krenak sofreu com a violência de grupos opressores. Desde a chegada dos portugueses ao País, eles foram afastados de seu território e submetidos a atos civilizatórios, tendo de fugir das ações colonizadoras que seguiam a doutrina da “guerra justa”.

Já na altura dos anos 1910, quando criado o SPILTN (Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais), os Krenak foram alertados a deixarem suas terras na região de Resplendor, Minas Gerais, de modo a abrir espaço para a estrada de ferro Vitória-Minas. O gesto, aparentemente de proteção, na verdade escondia a intenção de facilitar a tomada das terras por fazendeiros.

É neste momento que os Krenak começam a ser alocados em aldeias e em postos indígenas, por conta de ataques de fazendeiros à tribo, principalmente após o Massacre de Kuparaque, em 1923. “Hoje a aldeia é vista por muitas pessoas como um lugar onde os índios ficam, né? Mas a aldeia, na verdade, é uma represália criada pelo não-indígena para nós, porque para índio não tem cerca”, aponta Douglas Krenak, representante de seu povo na luta dos povos indígenas com o governo, na primeira parte do documentário.

Vendo que a resistência do grupo não era fácil de ser controlada e para acomodar melhor os fazendeiros, o SPILTN removeu-os do posto indígena Guido Malière e levou-os para os arredores de Água Formosa em 1953. O local era habitado pelos Maxacali, que viram a situação com muito estranhamento. Afinal, um povo diferente estava sendo forçado a fazer moradia em seu território. Na medida em que iam sendo levados de um lugar para o outro, os Krenak tinham de aprender a manter sua cultura, reinventando-a muitas vezes para que não fosse diluída pelo choque sofrido no processo que, mais para frente, foi batizado de “multiterritorialidade”.

Só em 1959 voltaram – a pé – para o local de origem, onde hoje fica o município de Resplendor, e encontram suas terras completamente tomadas por fazendeiros e pela Polícia Florestal. Mais de dez anos depois, no auge da ditadura militar, o governo Médici percebeu a dificuldade de seus soldados em controlar aquele povo e determinou que os próprios índios fossem militarizados, provocando a descaracterização da etnia e, em última instância, o começo de seu extermínio. Assim surgiu a GRIN (Guarda Rural Indígena), tendo Manoel dos Santos Pinheiro como nome principal – citado no documentário como o “temido Capitão Pinheiro”.

Era mais fácil que militares colocassem indígenas para reprimirem seus iguais, em um processo de “policiamento ostensivo das terras”. Aqueles que cometessem algum tipo de irregularidade – como vadiagem, relações sexuais ilegítimas e roubos, entre outros delitos – eram levados para o Reformatório Agrícola Krenak, chefiado por Oscar Geronymo Bandeira de Mello. Ao menos 15 etnias diferentes foram levadas ao presídio, segundo informações do documentário. O local era, na verdade, um presídio onde ocorreram torturas e execuções, além de desaparecimentos. O governo tratava disso como forma de levar cidadania aos povos nativos, tentando “integrá-los à sociedade”, o que não difere das práticas de “civilização forçada” feitas no Brasil colonial – sempre visando os interesses hegemônicos de quem esteve no poder.

Uma ação de reintegração de posse, de 1971, devolveria as terras tomadas pelos fazendeiros aos Krenak. Tal situação gerou revolta entre os poderosos locais, resultando num processo de perseguição àquele povo indígena. Nesse contexto, o capitão Pinheiro negociou a troca das terras em Resplendor pela Fazenda Guarani, outro local militarizado pelo governo, desterritorializando os Krenak outra vez. Para lá foram levados outros grupos, como os baianos Pataxós, o que irritou os mineiros, fazendo com que se dispersassem para locais aleatórios em São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais.

A 6ª Câmara de Coordenação e Revisão investiga todos esses abusos. Em 2015, houve um pedido de anistia aos Krenak, culminando em pedidos de remarcação e proteção de terras, reparação de danos e promoção de sua cultura. No final de 2014, a Comissão Nacional da Verdade estimou, em relatório, que ao menos oito mil índios foram vítimas da violência do regime militar.

O desastre ambiental causado pelo rompimento de barragens da Samarco, em 2015, foi o último caso de agressão aos Krenak que se tem notícia. Centenas de membros da etnia sentaram na estrada de ferro Vitória-Minas para protestar e chorar o prejuízo causado na região de Mariana (MG) e no Rio Doce, considerado sagrado por eles.

Bienal de Cinema Indígena
Entre os dias 7 e 12 deste mês foi realizado o Aldeia SP, conhecido como a “bienal do cinema indígena”. Idealizado por Ailton Krenak, trouxe produções cinematográficas feitas por diversos povos indígenas. As exibições se deram no Centro Cultural São Paulo e em cinco unidades do CEU, em parceria com a SPCine.

Os filmes vieram de múltiplas regiões do Brasil, contemplando uma variedade de etnias também nos bate-papos, entre elas os Guarani, os Huni Kuin, os Takuá e os Pankararu. A pauta principal do evento esteve ligada às questões das mulheres indígenas, valorizando o trabalho de diretoras e produtoras. Ao todo, foram exibidos 53 filmes.


Vídeo no YouTube: www.youtube.com/watch?v=DfkGVfkJpAM


FONTE: http://brasileiros.com.br/2016/10/etnocidio-dos-krenak-e-tema-de-documentario-disponivel-no-youtube/

Exposição discute resistência indígena através de adornos e arte contemporânea

Com curadoria de Moacir dos Anjos, mostra no Sesc Pinheiros coloca em diálogo produção de populações indígenas e de artistas como Bené Fonteles, Claudia Andujar, Lygia Pape e Paulo Nazereth

Marcos Grinspum Ferraz

“Eu creio que nenhum dos senhores nunca poderia apontar atos ou atitudes da gente indígena do Brasil que colocaram em risco seja a vida, seja o patrimônio de qualquer pessoa, de qualquer grupo humano nesse País. E hoje nós somos alvo de uma agressão que pretende atingir na essência a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar aqueles que não têm o dinheiro para manter uma campanha incessante de difamação… Que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas”, afirmou, em discurso na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, o líder indígena Ailton Krenak, ao mesmo tempo em que pintava o próprio rosto com tinta preta de genipapo. “Um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é inimigo dos interesses do Brasil, dos interesses da nação, e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. E os senhores são testemunha disso”, concluiu Krenak, já com o rosto inteiro pintado. Tão impactante quanto a fala, o gesto de tingir a própria face explicitava que a resistência indígena não se dá apenas no discurso, mas, principalmente, na persistência de suas práticas culturais, incluindo aí a pintura corporal e o uso dos mais variados adornos e artefatos.

O breve e memorável discurso de Krenak, apresentado em um vídeo de pouco mais de três minutos, é parte da exposição Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas, em cartaz no Sesc Pinheiros. Concebida a partir de uma parceria entre o Sesc e o MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP) e com curadoria partilhada entre Moacir dos Anjos e a equipe do museu, a mostra coloca em diálogo adornos indígenas de diferentes épocas e trabalhos de importantes nomes da arte contemporânea. Fundamentada na percepção do adorno enquanto elemento de resistência e luta pelo direito à identidade – não apenas como objeto de embelezamento ou enfeite –, a exposição propõe um diálogo entre o acervo etnológico do MAE e a produção de artistas que, mesmo sem origem indígena, tratam de temas caros a estes povos. “A ideia não é colocar um universo simbólico submetido ou reduzido ao outro. Os artistas contemporâneos não estão ali simplesmente para espelhar questões trazidas pelos artefatos indígenas, nem estão ali para fazer um discurso completamente paralelo, afastado do acervo. Nossa tentativa foi justamente criar uma exposição onde estes dois universos estão coexistindo no mesmo espaço, e criando aproximações, distanciamentos, atritos, acolhimentos e tensões, mas sempre dando ênfase a questão da resistência”, explica Dos Anjos.



Com trabalhos de Ailton Krenak, Anna Bella Geiger, Bené Fonteles, Carlos Vergara, Claudia Andujar, Delson Uchôa, Fred Jordão, Lygia Pape, Nunca, Paulo Nazereth e Thiago Martins de Melo – entre fotografias, pinturas, vídeos e desenhos – e adornos e artefatos de 23 populações indígenas brasileiras – dos Guarani do Sul aos Yanomami do Norte, dos Canela do Nordeste aos Bororo do Centro-Oeste –, a mostra é dividida em três eixos: o corpo como suporte de resistência; os testemunhos de resistência; as celebrações como resistência. Segundo o curador, ao colocar lado a lado produções nativas e de contemporâneos, a exposição ajuda também a quebrar ideias naturalizadas e pensamentos estanques. “O conceito de arte, assim como o de estética, é estranho à produção indígena, e nesse sentido temos que ter muito cuidado quando tratamos dela. Desse modo, colocar a arte contemporânea e os adornos juntos pode nos ajudar a perceber que esses conceitos não são naturais, são construídos. Nos ajuda a questionar por que uma coisa é considerada arte e outra não, por exemplo. Ou mesmo pensar se é possível estabelecer outras formas ou conceitos em que essas coisas estejam juntas: como é que podemos entender uma obra fotográfica e uma pintura corporal no mesmo patamar conceitual?”, diz Dos Anjos. “Por outro lado, é preciso todo o cuidado para não tratar como se fosse tudo a mesma coisa, como se pudesse ser tudo reduzido ao conceito ou de arte ou de artefato.”



Para o curador, a fala de Ailton Krenak apresentada no vídeo tem um lugar especial na mostra, justamente porque, além de ser um discurso político, é um caso particular situado no limiar entre a produção indígena e a arte contemporânea. “É muito interessante aquela fala, principalmente como ela é feita, porque está justamente no limite entre a pintura indígena como resistência e a performance artística.” É, também, um dos trabalhos que explicita o quanto é preciso ouvir e aprender com os povos indígenas. “As populações ameríndias podem nos ensinar a viver no futuro porque eles já passaram pelo fim do mundo”, diz Dos Anjos, remetendo a conceitos discutidos por antropólogos como Eduardo Viveiros de Castro. “Quer dizer, o mundo deles já caiu. Então eles aprenderam a viver após uma hecatombe, digamos assim, que sofreram quando foram colonizados. Estão vivendo o “pós-fim do mundo”, e criaram formas de se adaptar a essa situação e de se inscrever nesse mundo pós-apocalíptico. Então temos muito a aprender com os índios, em como vivem, preservam…”.



Sobre a crescente atenção dada pela arte contemporânea às temáticas indígenas – algo notável em exposições, bienais e trabalhos de artistas – Dos Anjos acredita que o fato se relaciona à urgência de tratar a questão em tempos de ataque constante aos direitos destas populações no Brasil. “Não é à toa que a exposição tem esse caráter de resistência”, afirma. Para tratar do tema, além de todos os adornos e trabalhos artísticos expostos, três vídeos na mostra apresentam de forma mais didática tanto aspectos relevantes da cultura indígena quanto notícias sobre a situação, por exemplo, dos Guarani Kaiowá, um dos povos mais atacados no País. “Na verdade, a escolha do caminho de desenvolvimento econômico que foi feita no Brasil conflita, no limite, com a própria existência dos territórios indígenas, e portanto com a existência dos povos indígenas. A sua existência conflita com esse desenvolvimento fundado no agronegócio, na mineração e na produção agropecuária para exportação que, no limite, vai passar por cima dos territórios e direitos indígenas”, diz o curador.


Dos Anjos afirma também que, apesar da discussão estar crescendo no meio da arte contemporânea, ela ainda é tímida vista a gravidade da situação. “Você conta nos dedos, no universo dos artistas reconhecidos, aqueles que tratam dessa questão. Ainda estamos longe de ter esse assunto colocado com o destaque que deveria.” Exposições como A Queda do Céu (Paço das Artes, 2015), Variações do Corpo Selvagem: Eduardo Viveiros de Castro (Sesc Ipiranga, 2015), Histórias Mestiças (Instituto Tomie Ohtake, 2015), além das duas últimas bienais de São Paulo (a 31a edição, em 2014, e a 32a, atualmente em cartaz), assim como Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas (que vai até 8 de janeiro de 2017) são algumas destas mostras que têm dado visibilidade à pauta indígena. Voltando mais uma vez ao discurso de Krenak, feito em 1987 e ainda tão atual, Dos Anjos conclui: “E acho que o fundamental nessa fala, assim como na exposição toda, é a defesa pelo direito à diversidade. Sujeitos diversos no mundo têm o direito a falar e ser escutados, a viver do modo como escolherem viver e a serem respeitados desta maneira”.

Serviço - Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas
Até 8 de janeiro
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195
11 3095.9400


FONTE:http://brasileiros.com.br/2016/10/exposicao-discute-resistencia-indigena-atraves-de-adornos-e-arte-contemporanea/

Mas existe cinema de índio?

A selva de pedra volta a ser floresta por alguns dias, de 7 a 12 de outubro, quando desembarcam em São Paulo 53 produções indígenas realizadas com o olho mecânico a que chamamos câmera cinematográfica. Orquestrada pelas mãos de música do líder krenak Ailton Krenak, a Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena aporta na “maior cidade” da América Latina, ameríndia do sul, num momento crítico de “avanço” e “aceleração” bandeirante por sobre a floresta que parece querer ser apenas de pedra.

Isael Maxakali, diretor de "Grin", um dos 53 filmes da Aldeia SP
Isael Maxakali, diretor de “Grin”, um dos 53 filmes da Aldeia SP

A coincidência histórica (existem coincidências históricas?) não passa despercebida por Alfredo Manevy, o presidente da Spcine, empresa pública municipal que patrocina o rito com ouvidos de quem testemunhou e ajudou a construir uma visão mais-que-eurocêntrica da política cultural brasileira (ameríndia, afrobrasileira etc.), sob os olfatos baianos-e-universais dos ex-ministros da Cultura Gilberto Gil e Juca Ferreira. “Boto muita esperança de que esse evento seja um momento para pensar o Brasil a partir do olhar dos indígenas”, afirma Manevy, de braços abertos para o futuro, seja ele qual for.

O gestor público acredita, por exemplo, que os indígenas que estarão reunidos a partir da sexta-feira 7 no Centro Cultural São Paulo (CCSP) têm toques importantes a acrescentar à nossa atmosfera altamente poluída por golpes de estado e estados de exceção. “Eles sabem mais desse assunto do que nós. Eles vão tirar a gente da deprê”, diz. De fato, é particular a compreensão de Ailton Krenak em relação ao golpe de 2016:



Ailton Krenak: Não é a primeira vez que o povo indígena vive uma situação de exceção, de suspensão de direitos. A gente já viveu isso muito antes. Viveu no tempo da colônia. Há muito tempo os jesuítas tinham uma constelação de aldeias espalhadas pelo país e o Marquês de Pombal chegou aqui com poderes de vice-rei e detonou com aquelas missões todas, abriu pros fazendeiros caçarem índios dentro das missões e fazer escravos. Nós sobrevivemos. Depois teve Dom Pedro II, com as reformas dele. Nós sobrevivemos. Depois teve a lei das terras de 1850. Nós sobrevivemos. Finalmente teve a tal da proclamação da República. A gente não tem nada a ver com ela, saímos de uma colônia pra entrar numa República. Entramos pelos canos da República em finais do século XIX e atravessamos o século XX levando tudo quanto é tipo de rasteira. E estamos vivos. Os índios são à prova de golpe. Pode vir, nós não estamos aqui de bobeira. A gente tem genealogia.

Pedro Alexandre Sanches: Você está dizendo que para o índio o estado de exceção é perpétuo?

AK: O estado de exceção é a nossa praia, desde que os portugueses chegaram aqui com aqueles botes podres deles.

PAS: Ditadura é quando a classe burguesa começa a perder direitos que os outros já não têm?

AK: Exatamente, que os outros já não têm. Isso é que é uma ditadura. Eu abri uma fala num colóquio internacional de povos e comunidades tradicionais em Montes Claros, no sertão de Minas Gerais, no meio de um monte de gente sertaneja, crianças. E pensei: eu preciso calibrar o que vou falar aqui, porque senão vou falar só pros brancos. Quero falar pros índios também, pros quilombolas, pras crianças. Aí comecei falando: vocês ouviram uma saudação, quando nós abrimos este encontro, dizendo “fora Temer“, “abaixo o golpe”. O povo gritou: “É!”. Eu falei: mas não se iludam, porque o golpe, o nosso, começou há 500 anos. Tem 500 anos que nós só estamos levando golpe. E aí consegui abrir uma conversa com os quilombolas, com os xacriabá, com as comunidades indígenas do Alto São Francisco que estão flageladas. Não vou fazer piadinha sobre o evento, mas tem criança atravessando o São Francisco com água pela canela. E eu chorei de ver a miséria deles. E tem 500 anos que eles estão sendo sugados, sacaneados. Eu queria alertar eles pra não embarcar nessa de gaiato, de gritar agora porque a classe média está perdendo um pouquinho dos seus latifúndios.

PAS: Isso também valia pra quando estavam gritando “fora Dilma“?

AK: Não tem dúvida. Por que não foram gritar “fora Dilma” lá em Belo Monte, quando ela estava comendo os índios feito uma leoa no cio?

PAS: Mas há o perigo de perder direitos que já estavam conquistados? Vocês são, digamos, um público preferencial do Temer.

AK: Eles não vão acrescentar mais sofrimento à nossa vida do que nós já conhecemos. Quem vive comendo jiló não acha nada amargo. Se o povo indígena sempre foi assaltado e sacaneado, a diferença é ser assaltado subliminarmente o tempo inteiro ou ser assaltado e sacaneado publicamente, com campanhas públicas de arregimentar golpistas. Era para a demarcação das terras indígenas ter sido concluída em 1995. De 1995 pra cá o relógio só está contando, o taxímetro está tec, tec, tec, e os caras roubando. Roubaram a gente no governo do Collor, no governo do Fernando Henrique, no governo do Lula, no governo da Dilma e agora parece que vão assaltar no governo do Temer, porque é um roubo monumental. Mas nós estamos aqui pra resistir, uai. Eles passarão, como dizia o poeta, nós passarinho.

PAS: Tomaram posse dizendo que vão vender terras brasileiras pros gringos. Que terras serão essas?

AK: Eles passarão. Eles passarão. Os nossos netos vão jogar uma pá de cal na sepultura desses caras. Vão cuspir na sepultura deles. E eu não sei nem se eles vão ter netos. Nós temos que pelo menos ter a coragem de difamar esses caras.



Num dos atos que poderão emoldurar simbolicamente a despedida dos quatro anos de governo Fernando Haddad na capital paulista, a Aldeia SP se inicia às 15h desta sexta-feira, com exibição do documentário Martírio, do franco-brasileiro Vincent Carelli, recém-premiado (mais) pelo público e (menos) pela crítica do Festival de Brasília de 2016. Carelli é um pioneiro na construção daquilo que hoje podemos chamar de cinema de índio (com o projeto Vídeo nas Aldeias, homenageado na marcadamente indígena edição 2016 da Bienal de São Paulo), e estará no centro de uma roda de conversas às 18h, junto a 12 realizadores indígenas de diversas partes do Brasil.

Sentado num escritório de concreto escondido numa das inúmeras janelas do vale do Anhangabaú, Alfredo Manevy fala sobre a profusão indígena na São Paulo de 2016 e sobre a dificuldade que a cidade tem de reconhecer sua porção indígena. Aborda o impacto que a Aldeia SP pode legar à selva bandeirante e fala poeticamente sobre o olho indígena que inventou o cinema séculos antes de o cinema ter sido inventado e transformado em indústria & comércio.



PAS: Por que a Spcine está investindo num festival chamado Aldeia SP?

Alfredo Manevy: Esse projeto já existia antes, quando a Spcine estava sendo criada na Secretaria Municipal de Cultura. Juca Ferreira era secretário e já vinha de uma visão do Ministério da Cultura (MinC) dos anos Lula, absolutamente favorável a reconhecer a contribuição dos indígenas para a cultura brasileira, para as culturas dos próprios indígenas, dos não-indígenas, e a entender essa contribuição como algo essencial para o Brasil. Juca praticou essa visão no MinC entre 2003 e 2008, com vários editais para as culturas indígenas. Até então o ministério não se relacionava com os povos indígenas. Quando Juca assumiu a Secretaria de Cultura, propôs um olhar para as culturas indígenas aqui de São Paulo e do Brasil. São Paulo tem povos indígenas que não reconhece. Não tem sequer um museu de cultura indígena aqui, o que é um absurdo. Tinha ações muito pontuais de apoio, mas nada significativo em relação às quatro aldeias urbanas que a gente tem. Trazer essa discussão para cá é também reverberar uma possibilidade política e cultural de ela se tornar uma pauta na ampliação de direitos, de direitos culturais, de direitos de terra. É estratégico para os indígenas disputar São Paulo, porque aqui é onde muita coisa acontece do ponto de vista político. E é interessante para nós, não-indígenas, ter acesso a essas culturas, porque elas lidam com questões contemporâneas, com questões do futuro da humanidade, de maneira muito mais apropriada que a nossa. Sob o ponto de vista das relações coletivas, com a terra, com a natureza, com alimento, entre pais e filhos, apontam para pelo menos uma relativização do modo de vida ocidental tal como ele está posto, esgotado há pelo menos um século. Eles têm um olhar fundamental para que a gente saia desses impasses.

PAS: Nós que estamos trabalhando na Aldeia SP temos testemunhado uma surpresa de jornalistas e de outras pessoas com a seguinte questão: mas existe cinema de índio? Grande parte das pessoas estranha até mesmo esse ponto de partida. Existe cinema de índio?

AM: Existe e é um cinema de muita qualidade estética e cultural. Claro que existe um interesse antropológico de olhar o diferente, de olhar um outro modo de vida, mas são filmes de grandes artistas, grandes intelectuais e grandes pensadores. E como o próprio Ailton Krenak não se cansa de dizer e repetir, a gente não pode tratar esses povos sob a generalidade de indígenas, como se eles não tivessem individualidades, subjetividades. São muito diferentes entre eles, coletivamente e individualmente falando. Eu diria até mais, que não só existe o cinema indígena como eles têm muita familiaridade com a linguagem audiovisual. Essa linguagem já está muito presente na cultura visual indígena, nos grafismos, com a ideia da virtualidade, do xamanismo, das conexões num plano wi-fi. O olhar dos indígenas é muito desenvolvido, antes mesmo do aparato cinematográfico. Sem falar em todas as mirações indígenas. Eles brincam que o cinema 4D já está lá há muito tempo, e que nos rituais que fazem não precisa nem de tela nem de projetor. Está tudo ali já, é o cinema indígena.

Nilson Tuwe Huni Kuin, diretor de "Nós e os Brabos"
Nilson Tuwe Huni Kuin, diretor de “Nós e os Brabos”

PAS: Na verdade, o cinema imita os índios, e não o contrário?

AM: Do mesmo jeito que estava já na caverna de Platão a ideia do sonho, da escuridão, de projetar as coisas, para eles, que são culturas altamente sofisticadas e desenvolvidas culturalmente, o cinema é um absoluto e natural instrumento. O bacana desse evento é tentar respeitar a estratégia deles, para que possam usá-lo dentro da sua própria estratégia política, cultural, estética, e que isso possa ser uma plataforma para eles. A gente dá suporte como parceiros.

PAS: Qual é a importância, para uma empresa como a Spcine, de patrocinar um festival dessa natureza?

AM: Incomensurável, incomensurável. São Paulo é uma grande metrópole cultural, política, cidadã, estética da América Latina e do mundo. Todo mundo sabe que a programação cultural aqui é top, não deixa nada a desejar a Paris, Nova York. É uma lacuna muito séria a cidade não ter essa antena, não estar antenada numa das discussões mais contemporâneas do mundo. O mundo inteiro está olhando para isso, e a gente aqui parece ter ainda um resquício colonial que fica envergonhado embaixo da mesa e tem que tratar esse tema como de terceira ou quinta categoria, quando na verdade é hoje uma das questões essenciais. Então a Spcine dá uma contribuição, ao patrocinar esse evento que é iniciativa de uma liderança indígena fundamental do Brasil, o Ailton Krenak, que por sua vez se articula com outras tantas lideranças e artistas indígenas, em parceria com não-indígenas como Alice Fortes, que também está junto no projeto. Ao apoiar esse projeto nós estamos propondo ajudar São Paulo a se repensar como um centro cultural. A cidade tem essa lacuna, e ela nunca vai realizar todo o seu potencial se não admitir para ela mesma que tem indígenas, que está conectada com o Brasil indígena e que a discussão estética que está ali proposta nos filmes é fundamental para o cinema e para a cidade.

PAS: Veículos com matriz estrangeira como BBC, El País e Huffington Post se mostram interessadíssimos por essa ideia, que a própria São Paulo não vê.

AM: Isso está sufocado, numa certa visão que talvez tenha algum resquício de um Brasil colonial, colonizado culturalmente, uma visão recalcada mesmo, de não entender essa relação. Como é que São Paulo não tem um centro cultural indígena contemporâneo? Não temos museus. Nos orgulhamos de ter uma Bienal, o Masp, a Pinacoteca e tal, que ótimo. Mas não ter um centro de referência das culturas indígenas na grande metrópole de um país que tem ainda 200 povos indígenas vivos, vivíssimos, que tem 180 línguas, que chama atenção no mundo pela sua diversidade cultural fortíssima? Não digo nem museu, porque museu seria falar do passado, mas falar da cultura viva dos indígenas. A gente não conseguiu nesses quatro anos, é uma lacuna da nossa gestão. Tentamos, tinha propostas, projetos, mas não conseguimos articular. Mas essa lacuna está muito clara. São Paulo não se assume com essa conexão com o Brasil, com a Amazônia, com os Guarani aqui da própria cidade. Ela deveria ser a primeira a dizer de si mesma: poxa, a gente é uma grande metrópole do mundo que tem indígenas. Que grande metrópole tem isso? Nova York e Toronto gostariam de ter essa conexão.

PAS: Você está falando isso dentro do vale do Anhangabaú, que é onde fica a Spcine.

AM: Exatamente. Estamos aqui numa terra indígena, no epicentro dela, onde passava um rio que foi soterrado. Os indígenas jamais permitiriam, se fosse um projeto urbano deles. Uma vez ouvi (o jornalista) Washington Novaes falar de quão interessante é a constituição dos aglomerados das aldeias, das populações indígenas, que nunca permitem uma tal cumulação de gente a ponto de gerar um impacto ambiental destrutivo. Isso explica os deslocamentos, as separações. Quando chega num patamar que vai se fazer cidade no sentido tradicional ocidental, eles se reorganizam, de maneira a não deixar. A gente tem que destampar essa panela e permitir que a cidade se conecte com uma parte da sua identidade, que está muito presente, como você lembrou, nas ruas, nos logradouros, na memória, que São Paulo às vezes sonega de si mesma. Isso custa, sacrifica a cidade.

PAS: Qual a importância e o impacto de levar o cinema de índio para os CEUs (Centros Educacionais Unificados) das periferias da cidade?

AM: Essa é talvez a grande sacada do projeto: não só trazer essa discussão e a exibição dos filmes no centro expandido, mas permitir que essa discussão chegue à periferia. Com o Circuito Spcine agora é possível que tudo isso chegue exatamente no mesmo padrão técnico que chegaria para um cinéfilo antenado nesse tema, um antropólogo, um indigenista. Da experiência anterior, a Aldeia SP 1, o próprio Ailton me contou que as periferias se relacionam às vezes de maneira muito melhor e mais bem resolvida. Se identificam com a marginalização que a sociedade promoveu desses povos. Se identificam com a exclusão, com perceber artistas que não têm a oportunidade de ter uma janela de exibição. Da primeira vez que os cineastas indígenas foram à periferia, aos CEUs, tinha fila de autógrafo depois das sessões. As crianças e adolescentes podiam ter um contato direto com os indígenas, e é preciso entender que essa é uma conexão de hoje, não do passado. Às vezes os livros de história colocam de uma maneira que parece que isso tudo está num passado remoto. As pessoas não têm nenhum acesso a indígenas e comunidades. Às vezes passam a vida toda sem ter um contato. Esse contato é transformador e vai permitir que todas as pessoas que tiverem essa experiência pensem de maneira diferente o Brasil, entendam o Brasil de uma outra forma, não a partir do modo de vida único sedimentado numa grande cidade como São Paulo, com um único padrão de consumo, de mobilidade, de expectativa de vida, de relação com a natureza. Tudo isso entra em choque, em cheque, porque a maneira como eles colocam as questões já é uma provocação filosófica, que a criança até entende mais às vezes que um adulto. São as perguntas muito elementares da vida que estão ali colocadas: por que estamos aqui, para quê, qual o significado da minha vida?

PAS: Muito provavelmente muitas dessas crianças são descendentes de indígenas, sem saber. Pode ser um reencontro.

AM: Com certeza absoluta, um reencontro com seu DNA, que está ali sendo pasteurizado por uma cultura que se coloca como única durante um século. E de repente a pessoa se percebe indígena. É o que está acontecendo nos últimos anos, que é chamado de etnogênese, as pessoas se declarando indígenas no IBGE. Não é que nasceu. Teve, sim, um aumento de nascimentos, por melhoria das condições de vida, diminuição de algumas barbáries – embora muitas continuem, barbáries terríveis do agronegócio no Mato Grosso, de fazendeiros, violência urbana, alcoolismo. Mas a gente teve de fato uma melhoria das condições de vida nos últimos 15 anos. Ficou mais vantajoso ser índio, ou se declarar índio, sem ser tão agredido, violentado. Essa autodeclaração está acontecendo nos grandes centros, e isso é um privilégio para o país, de estar no Ocidente e poder ter essa perninha que de certa maneira é o Oriente do Oriente. O que é essa relação, por que ela se dá dessa maneira? A gente fala do Tibet, das grandes matrizes espirituais do planeta, e a gente tem aqui dentro uma sabedoria absurda, não-reconhecida, que as universidades inclusive ignoram com seus modelos de bacharelado. Está mudando, o Ailton ganhou lá seu honoris causa, algumas universidades estão reconhecendo esse saber que não é formal, não está dentro do escaninho do mundo civilizado ocidental do Renascimento para cá, aquela coisa totalmente segmentada do conhecimento organizado. Mas está aqui, o mundo inteiro olha para nós. Por que eles olham e ficam de cara? Porque lá está numa crise tão grande há tanto tempo que olham para esses grandes saberes, essas grandes alternativas de conhecimento que não foram intoxicadas ou colonizadas pelo saber central, como uma alternativa de respiro para o futuro da vida humana. Enquanto aqui a gente despreza e trata como se fosse um conhecimento de quinta categoria e persegue a ponto de matar, aniquilar, os centros de conhecimento do mundo olham para cá de olho na biodiversidade, nas medicinas, na cultura, na espiritualidade. E vão pinçando, e às vezes patenteando, com usos indevidos e às vezes com usos bacanas, louváveis. Mas que paradoxo é esse?, a gente com uma certa vergonha de uma presença decisiva do Brasil no mundo, e o mundo inteiro olhando para cá e vendo que é um ativo fundamental que devia ser cuidado com o maior carinho do mundo pela democracia brasileira. A gente não faz isso, não tem feito.

PAS: Quando Lula criou a Seppir, Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, se pensou inicialmente nos negros, mas começaram a aparecer lá ciganos e outras minorias. Ao criar uma secretaria de igualdade e identidade racial, se chamou também quem não estava nem sendo lembrado. Com os indígenas aconteceu o mesmo?

AM: Eles começam a se autoafirmar na relação com o Estado. O fio da meada importante é a relação do Gilberto Gil como ministro. Ele prega, firma claramente que o Ministério da Cultura do Brasil é a casa de todas as culturas que formam o Brasil, não apenas de uma cultura bacharelesca, de belas artes, que está consagrada em instituições mais tradicionais: os índios têm cultura, os quilombolas têm cultura, os grupos urbanos têm cultura. Quando fala isso, Gil abre o MinC, e isso é um ponto de ruptura muito grande com o que se tinha de percepção até então. Índio era só questão de terra e de justiça, da Funai e do Ministério da Justiça. Obviamente essa é uma questão central, sem terra não tem cultura, no caso dos indígenas uma coisa está ligada à outra. Mas, de lá para cá, o trabalho da política cultural foi de reconhecer os índios não como demandantes, mas como potência de contribuição cultural. Eles têm as demandas deles, lembro quando soltamos um edital lá atrás, em 2004, e muita gente dizia “não vai aparecer nada”. Tinha tanto preconceito que muitos dentro do ministério achavam que nem iam aparecer projetos, porque não iam conseguir redigir projetos na língua portuguesa, ou porque não tinham preparo para apresentar um projeto para lei de incentivo. Apareceram mais de 800 projetos na primeira leva. Os projetos foram tudo que você podia imaginar, menos o figurino tradicional do que é ser índio. Tinha projeto de rock’n’roll indígena, de hip-hop da floresta, de wi-fi digital.

Cena do filme tupinambá "Essa Terra Nos Pertence", em cartaz na Aldeia SP
Cena do filme tupinambá “Essa Terra Nos Pertence”, em cartaz na Aldeia SP

PAS: Todos em português, ou tinha algum na língua natal?

AM: Vários na língua natal. O edital permitia a inscrição oral. Foi uma briga com o Tribunal de Contas, que achava absurdo, e ganhamos a briga. Podiam escrever oralmente, uma coisa que repetimos agora aqui na Spcine com curta-metragem. As pessoas inscreviam sua ideia numa autogravação, e funcionou muito. É uma estratégia de quebrar o bloqueio que leva a dizer “o Estado não é para mim”, “eu não tenho direito a isso”, “isso é só para quem ganha”, aquele papo que todo mundo já pensou, e às vezes com razão, “esse dinheiro está carimbado lá para quem faz cinema”. A gente quebrou isso. Faz um vídeo, se a ideia é boa ela vai ser avaliada. E eram pouquíssimos projetos de museu, de memória. Tinha também, mas tinha muita coisa contemporânea, propondo mixagem, trabalho musical com relações mestiças, de índios com não-índios. Quebrou totalmente um paradigma, um preconceito que o Estado tinha. E abriu uma demanda absurda, e os indígenas até hoje se veem no Ministério da Cultura e querem que o MinC tenha uma política de cultura.

De certa maneira, quando Juca vem para cá, chamado pelo Haddad, e traz esse olhar de que as questões indígenas culturais têm que estar dentro do escopo da política, uma série de iniciativas passa a ser tomada. E a Aldeia SP vem com muita força para ser um espaço de relação com os indígenas, a partir de uma linguagem de ponta, que é o cinema. Muitos deles já falaram para a gente: a gente gosta da cultura de vocês, da cultura não-indígena brasileira, só que índio gosta de algumas coisas, outras a gente não quer. A gente não quer esse modelo de vida enlouquecido de vocês, essas máquinas todas. Agora, a gente gosta de computador, de câmera. Toda a parte legal eles querem. Ou seja, eles sabem o que é bom, o que não é sai fora, não interessa. O cinema é muito legal, está entre as coisas boas da nossa civilização, eles puxam para eles.

PAS: Uma dúvida: antes desse período todo, começando pelo Gil, já existia cinema de índio? Ou começou junto?

AM: Perfeito você perguntar isso, porque senão eu estaria sendo absolutamente omisso, ao não falar do trabalho muito interessante do Vídeo nas Aldeias, que inclusive está sendo comemorado agora na Bienal de São Paulo. É o trabalho que o Vincent Carelli fez nos últimos 30 anos, com várias etnias. Desenvolveu uma metodologia de aprendizagem do audiovisual, de trabalhar junto com os povos. Ele tem um trabalho desde os anos 1980 que é seminal no Brasil, respeitado por todos os povos. Ele era a nossa inspiração para transformar isso numa política. Não fomos nós, gestores, nem o Gil sozinho. Isso vem de uma história dos indígenas e de pessoas como Vincent Carelli, que desenvolveram um trabalho de baixo para cima, não de cima para baixo. O que o ministério fez naquela época foi reconhecer essas metodologias e tentar transformar em uma política pública para chegar a mais lugares, pontos de cultura. Então esse cinema existe há muito tempo, da época do videocassete, do VHS, e com a era digital ficou mais democratizado, com as câmeras digitais. Agora, com o celular, internet, Facebook, vira praticamente uma extensão da fala do indígena. Tenho alguns amigos no Facebook que moram em aldeia, você vê que eles postam toda hora depoimento, vídeo, são muito da linguagem audiovisual. Têm muita facilidade, para eles é mais fácil dominar o audiovisual que dominar o português. Eles já estão no digital, não precisam passar pela era analógica. Já vão direto para o que interessa. Tenho certeza que quando a realidade virtual virar uma coisa comum, no celular, eles vão nadar de braçada. Tudo que é virtual para eles é muito antigo. Estão pensando nisso muito antes que nós, que passamos pelo analógico e olhamos para o virtual com uma coisa futurista. Para eles, é o passado deles.

PAS: De todo modo, a Aldeia SP reflete um boom, um avanço na produção de cinema por parte dos indígenas, não?

AM: Tem um boom dessa produção, pelas políticas públicas que rolaram, pela democratização do acesso, pelas novas formas de luta desses povos. Ao mesmo tempo, tem um diagnóstico preocupante em função da não-renovação de certas políticas ou da não-continuidade de processos que começaram. Por exemplo, equipamento quebra na floresta, lá na fronteira com Roraima, onde só se chega de bimotor ou voadeira depois de tantos dias de viagem. Como isso é reposto? Quem repõe? Como esses realizadores audiovisuais vão continuar seu trabalho? Tem muita crítica, vai aparecer isso nos debates do evento. Como esses projetos podem continuar de forma que eles possam permanecer produzindo, e não produzir pontualmente? Ailton diz que muitos viraram cineastas, mas muitos produziram uma ou duas vezes e pararam, porque é muito difícil manter esses equipamentos, os fluxos de troca. Isso é um desafio. A gente espera que a bienal não só contribua para pensar e exibir os filmes, mas para ajudar a constituir políticas públicas, não só estaduais e municipais, mas nacionais. São pessoas que têm representação, vem gente da Amazônia, de vários lugares do Brasil, que têm lugar de fala nos conselhos nacionais e estão pleiteando políticas públicas que mantenham esse acesso.

PAS: Na Aldeia 1 não existia Spcine ainda?

AM: Só existia em forma de lei, mas não de estrutura.

PAS: Então foram para os CEUs com outra estrutura que não a que vai ser agora?

AM: Foram com DVD e projetor, e assim foi muito legal. É aquela história, a gente não tinha o equipamentão que tem hoje, mas quem queria fazia. Para a segunda edição, com a Spcine existindo e funcionando com 18 salas em operação, a gente tem uma Ferrari na mão. É um equipamento de ponta. Encontro cinéfilos, gente que saca mais de qualidade que eu, que dizem: “Vocês estão com um equipamento que outras salas que têm fama boa não têm”. Os filmes indígenas vão poder ser vistos na sua pureza, com a sua força de imagem e de som. Acho que vão impactar bastante, porque é uma janela mesmo para uma outra vida. Estamos felizes que isso circule, que não fique restrito a uma elite cultural da cidade que de certa maneira já tem acesso – neste momento estamos tendo a Bienal de São Paulo, com uma homenagem ao Vídeo nas Aldeias, e uma mostra no Sesc.

PAS: Eu ia perguntar isso, por que tanto índio de repente na cidade de São Paulo?

AM: Acho que não é por acaso. Os pajés vão ter que contar essa história para gente, está rolando.

PAS: Outro dia perguntei pro Ailton o que ele estava achando do golpe, ele falou “golpe a gente sofre desde 1500, não teve nenhuma novidade neste”.

AM: Eles sabem mais desse assunto do que nós. Eles vão tirar a gente da deprê. Golpe? Que golpe? É mais um, cara. Eles têm uma reserva de conhecimento do Brasil que a gente não tem e que para nós é muito importante. Não é só que a gente está ajudando eles, é uma dupla mão, eles vão trazer muito conhecimento para cá, como trazem permanentemente. Quem for nesse evento vai poder usufruir de um bate-papo de muita importância neste momento difícil que a gente está vivendo no Brasil, de qual é a expectativa de Brasil. Eles têm muito a dar esses toques na gente, na real, nesse tom meio épico deles: calma, não vai acabar agora, não vamos desesperar, golpe já tem há 500 anos, é mais um, vocês acham que não ia ter mais um?

PAS: Golpista por golpista, eles acham que Dilma era, que Lula era, que todo mundo é…

AM: A gente tem que ser franco, o governo Dilma não foi bom para os indígenas. No governo Fernando Henrique tinha a Ruth Cardoso, que tinha um olhar. Eles têm uma relação sempre tática com esses governos, foram duríssimos com o governo Dilma. A gente vai ter que lidar com isto, a esquerda não lidou bem com esse tema. O MinC foi uma ilha. Haddad aqui lidou melhor, ajudou a demarcar as terras dos Guarani, foi atrás, mexeu um pouquinho mais, mas ainda longe de satisfatório. Avançou mais em outras pautas do que nessa. Todas as famílias políticas têm uma dificuldade. É claro que o PT na sua história está mais ligado à luta por direitos, tem mais abertura, mas os indígenas são muito críticos às grandes obras, como Belo Monte e como Tapajós, que iam fazer agora e ia ser um desastre. Temer parou Tapajós, não porque gosta de índio, mas porque acho que acabou a grana, a Lava-Jato está em cima. Mas, seja o que vier daqui para frente, essa temática tem que estar no centro, porque ou a gente vai ser uma sociedade uniforme que vai atropelar e massacrar toda a diversidade, uniformizando uma visão consumista totalmente esgotada, ou a gente vai se abrir para esses processos todos que aqui no Brasil são fortíssimos. Não é só dos indígenas, é das religiões afrobrasileiras, de ciganos, das novas modalidades. É uma discussão política das mais importantes para qualquer futuro possível. É até anterior à política, é pré-política, da própria civilização: que tipo de vida a gente quer aqui neste lugar. Nossa democracia é meio formal, é voto, não lida muito bem com essas questões, tende a uniformizar. A Aldeia SP é um evento pequeno, modesto, mas acho que neste momento ele pode dar uma boa contribuição. E os filmes vão ter ainda mais força, porque ficam de um outro jeito, vão para além da retórica, são as provocações que vão mexer com as pessoas, quebrar preconceitos.

PAS: Nem começou a segunda Aldeia ainda, mas, com o cenário político posto hoje, teremos Aldeia 3?

AM: Espero que sim. O prefeito Haddad colocou bem na fala dele que quer dar um toque republicano à transição. Espero que esse gesto dele desarme um processo de polarização que está posto e vem da eleição, para que os dois lados tenham uma visão maior. Quero crer que sim, a orientação que o prefeito nos deu é de apostar que as políticas públicas podem obviamente ter orientação diferente, mas que as coisas estruturantes fiquem. Minha opinião é que isso é estruturante. Essa questão da diversidade em São Paulo é uma questão de direitos humanos, sociais. Não é uma questão de partido, pelo menos não deveria ser. De nossa parte, vamos fazer o possível para que esse conhecimento possa estar presente na nova administração e possa ser compreendido, apropriado. Tem que ver com a sociedade, como a sociedade acompanha e fiscaliza, mas a nossa parte é torcer para que sim. Vamos torcer, e ficar atentos.



(Este texto integra a cobertura da Aldeia SP, em parceria de FAROFAFÁ com a Bienal de Cinema Indígena.)

FONTE: http://farofafa.cartacapital.com.br/2016/10/06/mas-existe-cinema-de-indio/

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ailton Krenak recebe título de professor Honoris Causa na Federal de Juiz de Fora




UFJF concede título de professor Honoris Causa a Ailton Krenak

A Universidade Federal de Juiz de Fora vai conceder, na próxima quinta-feira, dia 18, o título de professor Honoris Causa a Ailton Krenak, uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro. Krenak vem trabalhando junto à UFJF desde 2014 em diversas atividades, com destaque para o Curso de Especialização “Cultura e História dos Povos Indígenas” e a disciplina “Artes e ofícios dos saberes tradicionais”.

“Embora esse reconhecimento tenha chegado junto com os meus 63 anos, é um ponto de partida, não de chegada. Este é um movimento para descolonizar a UFJF, abrir janelas para outros saberes e passá-los adiante”, diz Krenak, que é ambientalista, escritor e coordenador da Rede Povos da Floresta, dentre inúmeras outras ações voltadas para a agregação e união dos povos indígenas e dos povos da floresta.

A UFJF é a primeira universidade a outorgar esta titulação a um mestre do Movimento Encontro de Saberes, projeto nacional que tem o objetivo de levar à academia conhecimentos tradicionais. “Vejo como um privilégio para a Universidade a oportunidade de conceder essa honraria a Ailton Krenak, cujo trabalho tem alcance e relevância internacional. Começamos por uma pessoa que não deixa dúvidas quanto à sua capacidade e competência”, diz o coordenador do curso “Cultura e História dos Povos Indígenas” e das disciplinas do Encontro de Saberes na UFJF, Daniel Pimenta.
Como líder indígena, Krenak espera que a decisão da UFJF abra caminho para a ampliação do conhecimento também em outras instituições de ensino. “A UFJF avança com um sinal importante para outras universidades, especialmente as públicas, acerca da importância de integrar conhecimentos que não são os dos cânones ocidentais que orientaram até hoje a história brasileira. Diferentes saberes estão sendo integrados como recursos, e isso é fundamental”, diz, destacando que trata-se de um ganho coletivo. “Sempre ouvi comentários preconceituosos, mas um grande contingente da população à margem da leitura e da escrita é portador de conhecimento. Hoje a universidade se abre para outras formas do saber e fico feliz por fazer parte disso. É uma vitória coletiva não só dos indígenas, mas de outras culturas da oralidade e da memória.”

O título

O título de professor Honoris Causa é concedido pela UFJF a personalidades, nacionais ou estrangeiras, cujas atividades, publicações ou descobertas tenham contribuído para o progresso da educação, das ciências, das letras e das artes. O processo para outorga da honraria a Ailton Krenak foi iniciado no Departamento de Botânica, passou pelo Instituto de Ciências Biológicas e foi, em seguida, aprovado também pelo Conselho Superior (Consu). A entrega do título será feita em sessão solene, às 19h desta quinta-feira, no Mamm. O evento é aberto ao público.



FONTE: http://jornalggn.com.br/

segunda-feira, 13 de abril de 2015

“Se o bicho avançar, vamos encarar de pé”, diz Ailton Krenak

Principal líder do movimento indígena nos anos 1980 fala sobre o desafio atual para evitar o retrocesso dos direitos e o avanço dos interesses antiindígenas
por Felipe Milanez — publicado 10/04/2015



Ailton Krenak é um dos mais destacados intelectuais do Brasil, principalmente no que se refere ao sentido pós-colonial das formas de pensar o mundo. Foi a liderança central na luta indígena dos anos 1980 que culminou com a garantia de direitos fundamentais estabelecidos na Constituição Federal de 1988 – momento em que pronunciou um discurso histórico na tribuna do Congresso, que integra o belo filme Índio Cidadão, de Rodrigo Siqueira. Sendo um dos fundadores da União das Nações Indígenas e a Aliança dos Povos da Floresta, além do Núcleo de Cultura Indígena, o Programa de Índio, e diversas iniciativas de luta pan-indígenas.

Estive com Ailton, em janeiro, no Rio, numa roda de conversas junto do indigenista Vincent Carelli e da antropóloga Betty Mindlin, em um programa dirigido por Marco Altberg que se chama Índios em Movimento, e que deve estrear no segundo semestre no SescTV. Para mim, foi um momento especial de aprendizado junto a pessoas que admiro muito.

Ano Passado, também no Rio, Ailton foi um dos palestrantes do prestigioso seminário internacional Os Mil Nomes de Gaia, organizado pelo antropólogo do Museu Nacional, Eduardo Viveiros de Castro, e a filosofa da PUC/Rio, Deborah Danowski.

Nessa próxima semana em que acontece a Mobilização Nacional Indígena (de 13 a 16 de abril, convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib) Ailton vai lançar um livro da coleção Encontros, da Azougue Editorial, com apresentação de Viveiros de Castro, que reúne diversas entrevistas concedidas ao longo de sua vida, entre 1984 e 2013, e organizadas pelo editor Sérgio Cohn, e inclui o belo discurso no Congresso em 1987 (Ailton Krenak / organização Sérgio Cohn. Encontros. Azougue Editorial, 264 p., R$ 36,00, disponível na loja da editora no facebook). Sobre a obra, que considero imperdível e uma das grandes publicações do ano, escreve Viveiros de Castro: “Ailton empreende um análise fulminante dos esquemas de invasão da Amazônia, desde os negros tempos da ditadura civil-militar até os tristes anos da presidência Dilma Rousseff”

Nesse depoimento abaixo, concedido numa conversa por telefone, Ailton fala da importância dos xamãs, das trajetórias de lutas das grandes lideranças, dos bichos mágicos e assustadores que são os ruralistas e as grandes mineradoras, e do bem comum e do bem viver como formas de luta e de esperança.

Depoimento

1: A memória dos antigos que estão morrendo: são indivíduos, mas sujeitos coletivos

Incomoda a gente sentir que vamos perdendo pessoas cuja memória depende da tradição de oralidade. Eles partem não deixam muita coisa de referência para a gente conhecer o pensamento deles. São como as árvores no outono; as folhas vão caindo e a gente fica frustrado com as perdas.

Por outro lado, hoje há a nova geração. Essas pessoas estão transitando para a escrita, estão começando a publicar, a escrever. Mas ainda não tenho uma ideia do que vai sobrar daqueles que estamos perdendo. Me pergunto o que é que vamos herdar desses seres que cantam, seres que são mágicos, pessoas com a visão magica do mundo e que alimentam nossa esperança.

Aniceto Tsudzawere Xavante, Payaré Gavião, Geraldino Rikbatsa, Mro’ô e Kañon Kayapó, esses são alguns que perdemos mais recentemente. No entanto, mais longe, tivemos o querido Marçal de Souza Tupa’i, assassinado em 1983 na porta da sua casa. Mesmo quando a gente lembra dele, a gente tem poucas coisas que ficaram registradas de seu pensamento. O que ele anteviu na sua luta, é o que os guarani estão vivendo hoje.

Parecia que o Marçal era uma pessoa fora do tempo dele, principalmente com relação à questão fundiária. Nem os guarani, naquela época, colocavam essa questão de terra dessa maneira, não havia essa demanda da terra há 40 anos atrás, isso foi se construindo mais recente, nos últimos 20, 30 anos, até se configurar nessa situação trágica do xeque mate dos ruralistas no Mato Grosso do Sul. E o Marçal já imaginava que, do jeito que a coisa estava, iria chegar uma hora em que eles iriam estar encurralados da maneira como estão hoje. Ele não iria arriscar a vida dele se não estivesse já, no início dos anos 1980, não estivesse antevendo esses perigos todos para seu povo.

Outra pessoa que me vem na memória é o Mario Dzururã, o Juruna. A visão dele de sair daquela vida que tinha na aldeia para se meter nessa confusão que é a politica brasileira, a atração que sentiu para ter essa experiência no Congresso Nacional. E, desde então, a gente não conseguiu em nada se aproximar daquele momento. Não houve uma evolução daquele quadro com relação à presença indígena na cena política. O lugar que os índios puderam ocupar no debate politico ficou parecendo um apêndice da realidade politica. Uma via paralela. Se alguma novidade foi produzida, foi no sentido de ter o desejo de se descolar da tutela. Mas para o Juruna isso não era mais um problema, para ele a questão da tutela já estava superada.

Tanto o Marçal, quanto o Juruna, um na questão da terra, outro na cidadania, foram dois grandes exemplos de pensadores que não deixaram muitas anotação sobre suas ideias. Eles foram, partiram, e puxaram uma fila de grandes lideranças que foram sem que tivesse ficado registrado uma parte importante de seus pensamentos. E a cada década a gente tem perdido essas possibilidades.

Eu acho que há uma necessidade de se fazer biografia dessas pessoas. Se eu me sentisse capaz de me dedicar a um trabalho desses, faria isso.

Vai sair por uma editora de Belo Horizonte um pequeno trabalho que me dediquei a fazer, mais focado família, contando histórias da vovó Laurita. É ela quem puxa a nossa visão de mundo, a história da trajetória dos Krenak até agora, nesse tempo que estamos vivendo. Vai se chamar O Livro da Vovó Laurita. A narrativa é ela contando histórias para os filhos. Nesse caminho deu até para voltar lá naquele decreto de guerra do extermínio aos botocudos do D João VI, no início dos 1800. Mostra um pouco como os Krenak de hoje são os sobreviventes da guerra do século XIX, passaram o século XX se reconstituindo, e estão agora, na sexta ou na oitava geração de pessoas interagindo com os colonos, os municípios, as vilas, a mineração.

Através da trajetória dessas pessoas a gente conta a história de vida desses sujeitos, mas também de seu grupo e do contexto que eles viveram e tiveram que se reorganizar para viver a vida. O choque de encontrar com os colonos, o choque de perder língua, de perder espaço inteiros da sua visão de mundo, compartilhar a visão de mundo com outras culturas, e todos os conflitos decorrentes disso. As biografias são fundamentais para a gente continuar tendo a presença desses indivíduos coletivos. Digo coletivos porque eles não viveram para eles sozinhos, mas para suas famílias, seus povos. Não são histórias e memórias de indivíduos, mas de coletivos.

Nesse sentido, quando falamos do Payaré, estamos falando dos Gavião da Montanha, como se descolou dos outros grupos, as escolhas para sobreviver, quando ficaram só ele, a sua mãe e alguns primos. O caso dos grupos que ficam apenas com algumas dezenas de pessoas para abrir caminho para o mundo. O risco de extinção que enfrentam. São temas muito fortes.

2: Sobre o atual momento de luta: cantar, dançar e suspender o céu.

Eu não quero ficar travado nessa engrenagem que estão passando por aí. Se a gente sabe que essa pressão tem conexão com tudo que esta acontecendo no mundo, na economia, esse aspecto macro, também penso que a política não teve criatividade de sair dessa roda, está subordinada ao mercado. Eu prefiro olhar para a janela que me inspirou no encontro que o Eduardo Viveiros de Castro e a Deborah Danowski fizeram no rio, Os Mil Nomes de Gaia. Lá, os colegas estavam olhando para a perspectiva do fim de mundo. Essa coisa que acaçapa o pensamento de muita gente, de que estamos no fim da picada. Para mim, ainda existem visões de mundo que cantam e dançam para suspender o céu. Quando o céu esta fazendo uma pressão muito grande sobre o mundo, uma parte desses humanos está cantando e dançando para suspender o céu. Se não fizerem isso, a pressão fica demais para nossa cabeça e ficamos sem saída. Eu não aceito o xeque-mate, fim do mundo ou fim da historia. Esse momento difícil para mim é quando eu mais evoco esse pensamento: cantar, dançar e suspender o céu.

Estive semana passada junto dos Yawanawá, la no Acre. Lá no terreiro, com os dois velhos pajés, o Yawá e o Tatá, e ao lado, aquela geração linda de meninas e meninos crescendo na floresta, vendo isso a gente consegue despachar esse fantasma da assombração econômica para longe. É como se a gente pudesse habitar outros mundos.

Não quero com isso negar a nossa solidariedade e corresponsabilidade com o que esta acontecendo com o mundo real. Mas a gente não precisa ser prisioneiro dessa visão fechada a ponto de não ter mobilidade. Mas ter uma visão equidistante. Saber que é possível avistar outras terras. Senão, a gente parece que está enfiado num tubo.

Essa utopia é o que me anima.

Não posso viver de uma maneira de que eu falo uma coisa e vivo outra realidade, digo uma coisa e vivo outra. Tem que haver uma harmonia entre o que eu vivo no cotidiano, e o que eu falo faço com as outras pessoas. Essa sintonia é para mim saúde. Significa a frase que muita gente tem falado: o bem viver. Para mi, isso tem que ser o bem viver.

Bem viver não depende de um monte de bugiganga que se adquire no mercado. Deve estar apoiado num fundamento próprio de uma visão de mundo que se herda de algum coletivo. No nosso caso, é a comunidade, povo, família. E as demandas da comunidade. Se a demanda é pelo território que está sendo predado, a água poluída, isso me incomoda. Mas eu não vou deixar esse ataque insidioso tirar a beleza de cada dia que amanhece, faça sol ou faça chuva. No meu caso, tem um menino aqui em casa, meu filho, que me diz todo dia: pai, levanta que o dia esta lindo lá fora. Ele fala isso mesmo quando chove, ou quando tá sol. Ta um sol lindo, ou tá uma chuva linda lá fora. Uma chamada dessas do filhotinho é a coisa mais importante para mim.

3: A ideia do bem viver

O conceito do bem viver chegou para gente principalmente pela experiência do Evo Morales, na Bolivia, e dos parentes Quechua, no Equador, que começaram a difundir em diferentes meios, colocaram nas constituições deles, uma visão de mundo que não esta subordinada ao mercado, às logicas do mundo financeiro, de ficar vendendo a terra para pagar divida de ontem. A lógica de vender a terra hoje para pagar a divida de ontem; trabalhar hoje para pagar o que comeu ontem. Nem ficar preso nessa besteira de que precisamos de tanta coisa para sobreviver que o século XX enfiou na cabeça.

A ideia que me atrai na mensagem do bem viver é a de se tirar do lugar onde está, seja do sítio, da gleba, da horta, o que é necessário para viver, comer, ter saúde. As relações serem suficientemente caras para não ficar doente de tanto conflito, conflitos internos e com as pessoas com quem convive. Independente de onde estiver, fazer exercício de autonomia, não criar tantas dependências. As relações não podem virar dependência. Se relacionar por autonomias. Essa ideia pode parecer uma coisa muito difícil de experimentar e de compartilhar com um número muito grande de pessoas, parece uma coisa que só pode acontecer em pequenos coletivos. Mas não é a ideia de ecovila, não é a ideia de ficar numa ilha separada no mundo. É diferente: pode interagir com o mundo, mas não precisa ficar subordinado a essa lógica que domina tudo, a lógica do mercado.

Tem gente que se preocupa quando lê, quando acorda, que o mercado esta nervoso. Ora, foda-se o mercado. Mas tem gente que tem infarto quando escuta alguém dizendo que o mercado esta nervoso. A expressão objetiva desse mercado nervoso são as petroleiras, mineradoras, as corporações invadindo tudo. É um bicho que se expressa nessas formas todas.

Se o bicho vier avançar nos nossos territórios, vamos encarar de pé.

4. Os extrativismos predatórios: o monstro

A prática que vem construindo desde da segunda-guerra mundial para cá, de que o mundo foi concebido de que está tudo dominado e tem que entrar nesse esquema, constrói uma visão tão abrangente que é como se não tivesse saída no mundo para além das corporações e engenharias. Essa é uma lógica que é constantemente atualizadas para sugar o planeta.

Acontece que do outro lado ainda tem gente que acha que a terra é a nossa mãe. Essa violência e essa agressão incide sobre um corpo vivo, que respira, que ama, que tem sentimento. E seus filhos, que são essa gente espalhada mundo afora, não querem ver sua mãe esquartejada, na forma de grandes buracos na terra, ou de rastelos rastelando todas as áreas possíveis, que chamam de agriculturáveis. Esses, esquadrinharam o planeta inteiro onde o extrativismo pode sacar alguma coisa, e espalharam gerência mundo afora para garantir que o suprimento está sempre no fluxo certo. Mas tem que gente que não quer isso. Eu não quero isso. E conheço milhares que não querem. Milhares que se expressam de diversas maneiras para dizer que não querem. Muitos pagam com a própria vida. Os que estão mais expostos, nos lugares onde a violência que não tem nenhum controle, são simplesmente mortos.

Essa imagem do monstro, do bicho que é o extrativismo predatório, dessa mineração, desse agronegócio, pode ser uma coisa cheia de significado mágico. Mas na verdade é isso mesmo. E a gente tem que ser capaz de enfrentar e brigar com esse bicho.

5: O ataque aos direitos dos povos indígenas

Percebi que esse ataque massivo que está acontecendo é porque perderam o instrumental que estava na mão deles. Perderam o que acharam que estava seguro. E nós conseguimos avançar, pelo menos na formalidade, na garantia desses direitos. Se temos uma boa legislação ambiental e direitos sociais, é porque avançamos em 1988. Como se esse pessoal da direita tivessem cochilados e acordaram agora, acordaram nervosos e querem morder todo mundo que está na frente. Certamente, eles queriam ter evitado isso 30 anos atrás. Não conseguiram, e esperaram.

Hoje temos uma lista de PECs, diferentes propostas de emendas à Constituição que desembocam na PEC-215, todas visando retirar direitos da Constituição Federal que foi chamada de cidadã por Ulisses Guimarães. Esta conspiração contra os direitos sociais é o único motivo de a direita ter formado maioria no Congresso, juntando os interesses mais escusos numa mesma frente golpista. Querem mesmo é rasgar a CF.

Parece que a direita no mundo inteiro é assim. Quando sentem que há uma conjuntura favorável, eles saem arrasando a terra. Até que se estabelecem, florescem, e dominam tudo.

A gente também tem que ter capacidade de avaliar o momento que estamos vivendo para fazer o contraponto. Se estamos sendo atacados, temos que nos defender. E avançar para cima dos territórios que eles acham que estão dominando.

Uma virada seria limitar as áreas aonde o agronegócio pode atuar. Nós não queremos acabar com eles, acabar com o agronegócio, isso não faz sentido. Mas eles também não podem acabar com a gente, como estão querendo. Tem que ter um limite: limitar uma área para eles aonde possam fazer o seu desenvolvimento, praticar o desenvolvimento deles.

Parece recorrente a ideia, mas nesses 500 anos a gente não conseguiu fazer com que aquelas canoas voltassem. Se a gente tivesse jogado aquelas canoas, embarcações, tudo mudo no mar, seria outra história, mas a gente não fez isso. Agora é disputar o avanço, a crescimento dessa população, que vai implicar em mais gente disputando terra, disputando água. Parece que não vai ter folga. As futuras gerações vão ter que estar cada vez mais capacitadas para garantir um lugar para viver. A agronegócio não pode sair comendo todo mundo. A mineração não pode sair comendo todo mundo. Desse jeito vai chegar uma hora em que eles vão sair comendo eles mesmo. Mas até para continuar tendo com quem brigar, eles precisam respeitar algumas autonomias.

As Unidades de Conservação, os quilombos, as terras indígenas, são lugares que a gente acha que precisam ser preservados como um bem comum. Acontece que eles estão tratorando tudo. E no campo jurídico também, estão quebrando tudo. São uns vândalos. Eles apontam o dedo para os outros, mas eles são os vândalos: os mineradores e ruralistas. Acham que podem arrasar com tudo. Isso é uma burrice. Estão queimando material importante para qualquer futuro comum.

registrado em: Felipe Milanez Ailton Krenak Mobilização Nacional Indígena Índios em Movimento


FONTE: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/201cse-o-bicho-avancar-vamos-encarar-de-pe201d-diz-ailton-krenak-1118.html

sexta-feira, 13 de março de 2015

Documentário mostra luta pela conquista da cidadania e trajetória do movimento indígena



09 de Março de 2015

Fruto de um intenso trabalho de pesquisa do diretor Rodrigo Siqueira Arajeju, de 32 anos, o documentário Índio Cidadão ? , revela o processo de conquista da cidadania indígena e os bastidores dos povos indígenas e a constituinte 1987/1988. Traz uma reflexão por meio de narrativas de alguns dos principais protagonistas indígenas da luta pelos direitos até os dias atuais.

''Nasci em Brasília, onde comecei a busca por minhas raízes em meio ao concreto armado do modernismo. Aos 32 anos, onde quer que esteja, posiciono minha artilharia criativa para questionar o rumo do país decidido nos gabinetes da arquitetura do Poder. Minha família saiu do Rio de Janeiro, chegaram na Capital para a inauguração em 1960. Gente humilde e honesta em busca de novas oportunidades e de uma vida mais tranquila. Meu avô materno se entrosou com indígenas nas suas aventuras de pescador no Planalto Central, talvez uma fabulação que ficou como memória familiar. Gosto de acreditar que sigo o caminho dele, ao meu modo...'' Rodrigo Siqueira.

Em entrevista exclusiva para Equipe da Rádio Yandê ele reflete sobre o processo de realização do documentário e comenta sobre próximos projetos.

Rádio Yandê - O que te motivou na realização desse projeto ?

Rodrigo Siqueira : Foi um processo de reflexão sobre a situação dos chamados "direitos indígenas" no Brasil, a partir de experiências profissionais com demandas por autonomia de Povos Originários em outros países do Continente. A inspiração surgiu em vivências com autoridades ancestrais do Povo Maya na Guatemala, a partir de 2008, época em que também assisti aos primeiros documentários sobre lutas indígenas contemporâneas na América Latina. No ano seguinte, trabalhei na Costa Rica, no Tribunal Latinoamericano del Agua, acompanhando casos indígenas. Em 2009 também assisti, em tempo real, a cobertura de grandes levantamentos por direitos, como o Baguazo, no Peru, e a Minga, na Colômbia.

Este foi o fermento para a ideia inicial do filme, que só amadureci quando voltei a viver aqui. Iniciei a pesquisa sobre a Campanha Popular Povos Indígenas na Constituinte, em 2011, na minha área de formação acadêmica que é o Direito. Pra mim foi um fato surpreendente aquela presença constante em Brasília, com a participação de delegações, saídas direto das aldeias. Importante recordar que o ordenamento jurídico vigente definia "os silvícolas" (índios) como relativamente incapazes para atos da vida civil e determinava regime de tutela pelo Estado. Percebi a força desta história e a necessidade de evidenciar um capítulo revolucionário, porém pouco conhecido, da redemocratização no Brasil.

Encarei com seriedade o sonho de realizar o meu primeiro documentário, mesmo sem prática em produções audiovisuais, pois era clara a abordagem tendenciosa da mídia e a desinformação da opinião pública sobre o processo de conquista de direitos constitucionais específicos pelos indígenas. As emissoras de televisão, normalmente, não dão voz às lideranças como porta-vozes de suas demandas. A leitura do contexto de crescentes ataques aos primeiros Povos do Brasil fortaleceu minha convicção sobre a importância e urgência da proposta.

Idealizei o filme para a televisão, pela percepção de seu inigualável potencial comunicativo nesta era da informática. Eu quis surpreender os telespectadores com a força da oralidade - característica das culturas originárias - na condução da narrativa, através de falas públicas e entrevistas com aqueles protagonistas do Movimento Indígena na Constituinte. Se tratando de processo de desobediência civil da tutela vigente, defini que o filme só seria autêntico a partir da perspectiva indígena dos fatos.

O meu pensamento foi de lançar luz sobre os episódios marcantes da campanha popular, coordenada pela União das Nações Indígenas (UNI) nos anos de 1987 e 1988, através do resgate de registros documentais desta autodeterminação indígena no Congresso Nacional. Depois, contextualizar a percepção das lideranças que participaram da Constituinte sobre os avanços obtidos com a conquista daqueles direitos e sua visão dos desafios de futuro. Assim, formatei o projeto cultural e inscrevi em dois editais públicos em 2011, sem êxito. Insisti no ano seguinte e a proposta foi contemplada pelo Fundo de Apoio à Cultural (FAC/DF) da Secretaria de Estado de Cultura do GDF.

Minha principal motivação foi estar a serviço das resistências de Nações Originárias no Brasil e projetar suas vozes de autodeterminação na televisão, com o objetivo de contrapor o discurso midiático anti-indígena vigente há décadas. Comecei audacioso mesmo, com a veiculação do filme neste incrível meio de comunicação em massa, querendo influenciar parte da opinião pública e agregar novos aliados ao Movimento Indígena. A televisão ainda é mais popular e acessível que a internet, sendo o alcance da TV Câmara privilegiado por permitir a sintonia nos rincões do país, via antena parabólica. Pelos dados auferidos pelo IBOPE Mídia, obtivemos alcance acumulado de mais de 1 milhão de telespectadores nas 25 exibições na programação de 2014 da emissora.


Rádio Yandê - Como foi o processo de produção?

Rodrigo Siqueira: Iniciei a pesquisa em 2011, quando me aproximei de lideranças da UNI para pedir aval ao projeto. Álvaro Tukano foi o mentor, compartilhou comigo lembranças e abriu generosamente seu rico arquivo de memórias escritas, contendo referências essenciais. Ailton Krenak comentou que não tinha conhecimento de filme sobre o tema, apoiando a proposta. Indicou o acervo digitalizado do Programa de Índio (programadeindio.org), que ele produziu pelo Núcleo de Cultura Indígena, com importantes registros jornalísticos dos programas de rádio veiculados pela rádio USP, entre 1985 e 1991. Também mencionou o filme Aos Ventos do Futuro, de Hermano Penna, com documentação de grande mobilização de lideranças em Brasília para o II Encontro Nacional dos Povos Indígenas, realizado na Câmara dos Deputados pela Comissão Permanente do Índio - criada e presidida pelo deputado Mario Juruna.

A pesquisa do filme foi baseada em arquivos de vídeo e áudio, documentos, reportagens e publicações. Para conhecer mais detalhes do processo de participação, pesquisei os anais da Assembleia Nacional (http://www.senado.gov.br/publicacoes/anais/constituinte/7c%20-%20SUBCOMISSÃO%20DOS%20NEGROS,%20POPULAÇÕES%20INDÍGENAS,.pdf) e as matérias sobre a Campanha Povos Indígenas na Constituinte. Outra fonte de consulta também foi o livro Os Povos Indígenas e a Constituinte - 1987/1988, de Rosane Lacerda, publicado pelo CIMI, contendo muitas fotos que depois utilizei no filme.

As principais referências audiovisuais da Constituinte foram cedidas pelo Centro de Documentação (CEDOC) da TV Câmara. Utilizei trechos dos programas jornalísticos Diário da Constituinte, veiculados, diariamente, durante os trabalhos da Assembleia entre 1987 e 1988, com os destaques da imprensa para a participação indígena. Também cederam vídeos e fotos o CIMI, o ISA e seu sócio-fundador Beto Ricardo. Os áudios do Mario Juruna foram obtidos do acervo do Programa de Índio e do arquivo sonoro do CEDI da Câmara dos Deputados. Só finalizei a pesquisa em 2014, durante a finalização do filme.

A pré-produção começou em abril de 2013, ano em que o patrocínio do FAC/DF foi de fato recebido. A ocupação do Plenário da Câmara dos Deputados pelo Movimento no Abril Indígena 2013 impôs a atualização do roteiro, incluindo a forte mobilização contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000. Iniciamos as filmagens em junho, quando estabeleci relação com os membros da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), durante os registros das reuniões do Grupo de Trabalho Questão das Terras Indígenas. O grupo foi criado pelo presidente da Câmara, após a histórica ocupação do Plenário da Casa, composto por parlamentares e lideranças das 5 regiões do país.

Acompanhamos a saga dos representantes da APIB no GT Terras Indígenas por meses, processo de participação que, de certa forma, renovou a constância da atuação de lideranças indígenas no Congresso, como ocorreu durante os debates da Constituinte. Na sequência registramos a Mobilização Nacional Indígena em Defesa da Constituição Federal, em outubro de 2013, no marco dos 25 anos de promulgação, episódio marcante nas filmagens. Em novembro, tive o privilégio de filmar a entrevista conjunta com Álvaro Tukano e Ailton Krenak, no salão verde da Câmara dos Deputados. Finalizamos a produção, entrevistando o Davi Kopenawa, aproveitando sua presença em Brasília para participação em programa da TV Câmara.

A pós-produção foi iniciada na sequência e seguiu até abril de 2014. Tive a honra de contar com o apoio de equipe indígena nesta etapa, pela preocupação de ser fidedigno com as falas em línguas nativas dos Povos Mebengokrê e A'uwe. Patxon Metuktire colaborou na tradução da entrevista do cacique Raoni e falas públicas de outras lideranças tradicionais como a Tuíra; Tsitsina Xavante e Gedeão Butse, no depoimento do pajé José Luiz Tsereté. Como ainda não tinha recebido o patrocínio no Abril Indígena 2013, contei com a parceria generosa do cineasta indígena Kamikia Kisedjê na cessão do material histórico da ocupação do Plenário Ulysses Guimarães - também retratada no filme com imagens da cobertura jornalística, cedidas pelo apoio de produção da TV Câmara. Kamikia também disponibilizou imagens da Mobilização Nacional de outubro, assim como a cineasta Maria Emilia Coelho.

Pela quantidade e qualidade do material documentado e dos arquivos cedidos, optamos por finalizar o documentário com 52 minutos de duração - formato orientado, prioritariamente, para a veiculação em emissoras de televisão. A edição foi um processo exaustivo e só fechamos a montagem do filme no final de março, com a fundamental experiência do meu parceiro de roteiro, o montador Sergio Azevedo, da Argonautas - empresa produtora associada, ao lado da 400 Filmes e Base Audiovisual. Assinam a coprodução a 7G Documenta, produtora independente que idealizei, e a Machado Filmes. A pré-estreia do filme aconteceu no Memorial do MPF, na Procuradoria-Geral da República, no dia 14 de abril. Dia 19, foi a estreia oficial com a veiculação nacional na TV Câmara.

Rádio Yandê - O que você acha que mais marcou na conquista dos direitos constitucionais e nas manifestações de Brasília em 2013 na escolha das cenas do documentário?

Rodrigo Siqueira: A diversidade da presença dos Povos Indígenas no Congresso Nacional, com seus trajes tradicionais e manifestações culturais, são as imagens fortes da Constituinte. Utilizei o material de arquivo disponível, que é essencialmente conteúdo jornalístico, mantendo o áudio original de algumas reportagens para ressaltar a caricatura da cobertura midiática em certos momentos. A discussão sobre os índios "aculturados" também é uma provocação sobre a manutenção inalterada de percepções e discursos conservadores, quase 30 anos depois. Em termos de cenas, considero as mais simbólicas a subida da rampa do Congresso Nacional pelo cacique Raoni, na abertura da sequência da Constituinte, e o emocionante discurso do Ailton Krenak na defesa da emenda popular da UNI.

A Mobilização Nacional Indígena de outubro foi um evento muito forte. Meu sentimento hoje é que filmar ali foi algo tão imprevisível como caçar um tornado. A presença de espírito foi fundamental, pois era impossível acompanhar todos os atos e entrevistar sequer a metade das lideranças de renome presentes. Para a narrativa do filme, o mais importante foi a queima da PEC 215/2000, que funciona como o clímax daquela catarse, representada na concentração de mais de 1.000 indígenas protestando no centro do Poder Federal. Além disso, foi o recurso de evidenciar a dubiedade do discurso de alguns parlamentares sobre o arquivamento desta PEC.

Pessoalmente, o que mais me tocou foi a entrevista com a Valdelice Veron. Eu já sentia a necessidade de explicitar o genocídio continuado do Povo Kaiowa e sua demanda histórica pela demarcação de terras. A entrevista dela foi muito tocante. Ao final, toda a equipe que trabalhava comigo estava embargada em lágrimas. O compromisso com aquelas graves denúncias alterou o roteiro do filme e também desta carreira que inicio como documentarista.

Rádio Yandê - Para você o que significou aquela cena de arquivo do Ailton Krenak pintando o rosto emocionado enquanto falava sobre a questão indígena?

Rodrigo Siqueira:Primeiro, preciso desabafar que este fundamental discurso por pouco ficou de fora do filme. Existe um grave problema de gestão dos acervos públicos de imagens, que principia com a dificuldade de consulta aos conteúdos de emissoras de TV e órgãos que conservam a memória nacional. Por exemplo, a Central de Cópia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) suspendeu os serviços de pesquisa e cessão de imagens, desde 2013. A cobertura da Constituinte foi realizada pela Radiobrás e, teoricamente, o seu acervo foi incorporado à EBC. E por incrível que pareça, não havia nenhum registro do Ailton na decupagem do acervo audiovisual do Congresso Nacional. Outro impeditivo é que, via de regra, o simples acesso é condicionado a pagamento e o licenciamento para reprodução é caro.

Eu só tinha a referência escrita do discurso da defesa da emenda popular da Campanha Povos Indígenas na Constituinte pela UNI, registrado nos anais da ANC, mas sabia da relevância do material para a narrativa do filme por ser imprescindível no contexto de conquista do capítulo “Dos Índios” na Constituição. Só consegui acessar o vídeo devido à cooperação que assinei com a TV Câmara, que me permitiu assistir às fitas de material bruto do acervo do CEDOC e resgatar a marcante intervenção do Krenak. Depois também descobri outra cópia no acervo do ISA, mas foi longa e tensa a sua busca.

O próprio Ailton só tinha visto pequenos trechos e com a sonora ruim, ao assistir o filme na pré-estreia teve a surpresa de revisitar aquele momento - que ele revelou ter desvinculado de sua pessoa, intencionalmente. É muito forte a simbologia de sua imagem, de traje completo branco e o rosto pintado de preto, uma afronta ao discurso do índio aculturado. A fala é de arrepiar, uma presença de espírito impressionante! Sempre que assisto me emociona, é um dos trechos do filme que já me faz chorar algumas vezes. Pra mim representa o luto e a luta, como dizem os parentes Kaiowa. Teve a importância de gravar nos anais da Constituinte a denúncia sobre o histórico de genocídio e ataques aos Povos Indígenas no Brasil.

Foi um momento histórico e fiquei muito feliz de conseguir reproduzir a íntegra do registro no filme, sendo destaque certo nos debates e comentários. Por sua importância, postei, também, no canal de vídeos de divulgação do ÍNDIO CIDADÃO?, pois espero que muitas pessoas sejam tocadas por estas palavras. Com base na pesquisa, avalio que foi o ato de protagonismo mais marcante da ANC. A imagem foi destaque na imprensa nacional e internacional. A repercussão foi tão incrível que ele adquiriu status de parlamentar constituinte no imaginário de muita gente, informação que ainda é equivocadamente reproduzida em diversos sites. Inclusive é o único representante da sociedade civil que compõe o mural de fotos dedicado à Constituinte, no Anexo II da Câmara dos Deputados, locação do depoimento dele na sequência final do filme.

Rádio Yandê - A Valdelice Veron é hoje um símbolo de luta dos Guarani Kaiowá. Por que a escolha dela para conduzir?

Rodrigo Siqueira:Testemunhei a contundente fala da Xamiri Nhuputy na cerimônia de entrega do IV Prêmio Culturas Indígenas, em julho de 2013, no Memorial dos Povos Indígenas. Já tinha visto vídeos dela e outros lideranças Kaiowa, mas fiquei realmente impactado com a força da denúncia sobre o genocídio da sua Nação em marcha no Mato Grosso do Sul. Quando a vi na Mobilização Nacional de 2013, foi a primeira pessoa que busquei para entrevistar.

A escolha dela para conduzir surgiu no processo de edição do filme. Porque tinha memórias de infância impressionantes da participação na Constituinte, acompanhando seu pai, o cacique Marcos Veron - grande liderança que iniciou o processo das retomadas Kaiowa e derramou seu sangue nesta missão. Senti a força dos seus depoimentos, principalmente o testemunho do assassinato do pai, e o comprometimento de dedicar sua vida ao seguimento desta luta.

O principal que intuí foi o potencial para sensibilizar as pessoas que desconhecem ou são contrárias à causa indígena, este é um dos principais objetivos do filme. Qualquer pessoa que ainda guarde um pouco de humanidade vai se sensibilizar com as denúncias que a Valdelice expõe. Ao ouvir sobre aquelas crueldades contra mulheres e crianças Kaiowa e a brutalidade do extermínio de lideranças, mesmo se tiver preconceito contra os indígenas, ela vai quebrar a barreira do outro e sentir na pele aquela ferida aberta. Quando se pensa o discurso audiovisual, é obrigatório calibrar a mira para que atinja seus alvos. Acredito que foi uma escolha acertada, muitas pessoas relatam comoção com as falas da Valdelice no filme.

Rádio Yandê - Você pensa em fazer uma continuação ou um novo projeto de documentário dentro da temática?

Rodrigo Siqueira:No processo de filmagens, percebi que a questão da falta de representatividade direta no Congresso Nacional era o mote para a continuação do tema e já troquei ideias com os entrevistados a respeito. Foi intencional terminar o filme com a fala do Mario Juruna e as reflexões do Ailton, sobre a necessidade de lutar com novos parlamentares indígenas. Estou no processo de produção do curta metragem ÍNDIOS NO PODER (título provisório), projeto aprovado no Edital Curtas 2013 da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nova parceria da Machado Filmes e 7G Documenta.

O roteiro do filme se inicia com o resgate de registros da atuação do Mario Juruna, único deputado índio na história do Parlamento, e das eleições para a Constituinte, quando se consumou a impossibilidade de representatividade, que perdura até hoje. A abordagem contemporânea se baseia nas Eleições 2014, na qual o protagonista que representará as dezenas de candidaturas indígenas é o cacique Ládio Veron da Nação Kaiowa e Guarani. O caso dele é simbólico: uma liderança das retomadas, ameaçado pelos latifundiários do Agronegócio, que luta para se eleger deputado federal para travar o debate político no Congresso, dominado pela Bancada Ruralista. É isso que posso adiantar, em breve teremos novidades.

Mas o trabalho pela divulgação do ÍNDIO CIDADÃO? ainda segue e tenho me dedicado aos desdobramentos do projeto. O filme foi selecionado na IV Mostra Pajé Filmes. Será exibido em abril, em Belo Horizonte, e tem a janela de novos festivais de cinema em 2015. Também tenho a intenção é distribuir para outras emissoras de televisão e aumentar seu alcance. O filme deve ser explorado como ferramenta de conscientização da sociedade, pois as terras indígenas são patrimônio da União e sua preservação interessa a todos nós brasileiros e as futuras gerações que tem o direito constitucional de herdar um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Outro grande desafio é expandir o seu poder de convocatória para a mobilização dos Povos Indígenas. Fizemos a distribuição gratuita do filme para lideranças e organizações, com muitas exibições em assembleias e cursos de formação em terras indígenas e retomadas de diferentes regiões do país. Iniciei diálogo promissor com a Coordenação-Geral de Promoção da Cidadania da FUNAI, visando difundir o filme e promover debates nas suas atividades de mobilização social.

Outro desafio é sua utilização nas escolas da rede de ensino pública e privada, como ferramenta audiovisual educativa, adequada ao conteúdo obrigatório estabelecido na Lei 11.645/2008, proposta traçada desde a concepção do projeto. Já existem instituições de ensino superior se valendo do filme, em graduações regulares e interculturais. Gosto de pensar sua difusão de forma ampla.

''Preciso viver com a esperança em lugar seguro, com atitudes cotidianas que alimentem meus sonhos pelo buen vivir para toda a humanidade e seres do planeta. Me recordei agora do final do filme, perfeito pra encerrar a entrevista. Dedico essa obra à Resistência de todos os Povos Originários e ao novo amanhecer dos curumins e das nossas crianças. Minha gratidão sincera pela oportunidade. E diga ao Povo que avançaremos!'' Rodrigo Siqueira.

Mais informações: http://indiocidadao.org/

FONTE:
Redação Yandê
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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Líder indígena vê influência das tabas de Tom Jobim a Sepultura

Ambientalista, líder indígena, ex-deputado federal, coordenador da Rede Povos da Floresta, Ailton Krenak é um dos principais articuladores dos direitos indígenas. E para ele, é preciso fazer uma reparação histórica, não apenas do genocídio pelo qual os primeiros brasileiros foram submetidos - e ainda são- , mas também em relação à influência e a presença da música indígena em nossa canção, da bossa nova de Tom Jobim ao metal do Sepultura. "Os pesquisadores como Anthony Seeger, Marlui Miranda e mesmo Roquete Pinto insistem que a base da criação da chamada música popular brasileira ou cancioneiro brasileiro é feita de índio, branco e negro, sem que tenha de ser percebido nesta ordem, claro! Uns tons de negro mais carregado chegam primeiro aos ouvidos que depois de afinados são também alcançados pelos timbres vindos de debaixo do chão, como diz o mestre (Gilberto) Gil, de onde vem o xaxado? vem debaixo do barro do chão... Bené Fonteles, Marlui Miranda, Caetano Veloso e Sepultura, todos, e Tom Jobim, também cantam este timbre vindo das tabas indígenas", defende o líder, que protagonizou uma cena marcante no Congresso Nacional, quando se pintou o rosto com tinta preta de jenipapo, nos anos 80. Krenak afirma que na cultura indígena, a música e rito, são cantos de guerra, de caçadas rituais "onde são evocados os espíritos dos animais a serem caçados,assim como é cantado o nome dos inimigos que serão guerreados". "São cantos de cura, onde a palavra cantada é medicina poderosa e veículo de trânsito entre o visível e outros mundos ou paisagens. Músicos como Milton Nascimento e Peter Gabriel já exploraram áreas da sonoridade-musicalidade indígenas em seus trabalhos que alcançaram ótima aceitação de público dando a eles um Grammy na década de 90", aponta. O líder indígena também lembra da parceria entre Egberto Gismonti e o pajé Sapaín. "Mesmo outros músicos e bandas contemporâneas seguem descobrindo novas sonoridades naquilo que podemos ouvir como música de 'índios'. Egberto Gismonti fez um memorável disco intitulado Sol do Meio Dia com o pajé Sapaím no Xingu, que até hoje continua sendo um marco no diálogo entre as tradições musicais modernas", afirma. Entre suas preferências particulares, de músicos não-indígenas, Krenak destaca Tom Jobim, compositor e maestro que antecipou as preocupações com temas ambientais, quando o assunto não era recorrente, e Caetano. "Muitas músicas que falam explicitamente de 'índio' me agradam, mas Borzeguim do Tom Jobim é minha preferida sempre e de longe. Tem a canção mágica Um Indio do Caetano, enfim músicas que tem uma poética direta falando de índio são a parte visível da coisa toda, que tem raízes profundas muita além das letras e poesia. (Heitor) Villa-Lobos é coisa de índio, assim como a obra de Tom Jobim foi insistente canção indígena dentro da bossa nova, que todos dizem que tem jazz nas suas origens. Vai dormir com um barulho destes vindo de debaixo do chão", provoca. FONTE:http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/musica/2013/04/26/324607-lider-indigena-ve-influencia-das-tabas-de-tom-jobim-a-sepultura 27/04/2013 08h24 • Fabiano Alcântara